Limites na Infância: um posicionamento necessário

15 ago

Texto elaborado pela aluna do curso de Formação em Psicologia Escolar, psicóloga Juliana Baía do Vale Santiago, de Belém – PA.

A frase de Hannah Arendt “As crianças deixadas à sua própria sorte, ficarão sujeitas à tirania do próprio grupo” diz respeito à temática da socialização, mais especificamente sobre limites. O desenvolvimento infantil saudável depende fundamentalmente de: 1) cuidados básicos de higiene, alimentação e proteção e; 2) ensino de comportamentos sociais adequados à vida em sociedade. No que se circunscreve ao ensino de comportamentos sociais, é mister ratificar que os limites são necessários ao processo de “humanização” da criança, facilitando a sua inserção nos mais variados ambientes sociais.

Sendo assim, a família é o primeiro círculo de coexistência grupal. É na relação com os pais e outros cuidadores significativos que a criança aprende as regras sociais, por meio de instruções diretas, vivências de tentativa e erro e observação de modelos. A criança começa a identificar as formas de ser no mundo, como se comportar, o que fazer para experienciar trocas afetivas e outras maneiras de reforço social. Contudo, a criança ainda não sabe até onde deve ir, qual o máximo de coisas que pode fazer, qual a intensidade de seu agir. Daí a importância da imposição de limites pelos cuidadores, sobretudo os pais.

Assim sendo, a criança ainda não tem maturidade e prática suficientes para discriminar como portar-se diante do mundo. São os pais que facilitarão esse aprendizado, como mediadores entre a criança e o mundo. A necessidade de limites inicia-se fisicamente, com a aprendizagem da noção de consciência corporal pelo bebê. Á medida que a simbiose mãe-filho vai sendo quebrada o neném passa a perceber onde termina o seu corpo e onde principia o corpo do outro, acomodando então o embrião de conceitos muito mais refinados, como empatia e autoconhecimento.

Logo, conforma o bebê vai crescendo, os pais passam a fornecer limites de comportamento, orientando a criança no que ela pode e o que ela não pode fazer. Nesse processo há a necessidade de cercear as ações com muita frequência, todavia esse é um movimento educativo fundamental, caso contrário, corre-se o risco de transferir aos filhos as responsabilidades que são dos cuidadores. Em uma família em que as crianças mandam, há claramente uma desorganização psicológica por partes dos adultos, os quais podem estar tendo dificuldades em internalizar o papel de responsáveis por outra vida, além das suas próprias.

Portanto, uma criança que não tem limites está à mercê do mundo. Diferentemente do que muitos pais pensam, os limites servem para proteger a criança de si mesma, de sua falta de habilidades para lidar com situações que só a experiência fornecida pelo tempo pode proporcionar. Constantemente a conduta dos pais de não fixar limites aos filhos deriva de um sentimento de culpa por não poder estar mais perto da criança, ou também pelo cansaço e esgotamentos físicos e emocionais que as mães precisam lidar com as exigências e pressões do cotidiano.

Portanto, a criança que cresce sem limites, quando passa a conviver em outros ambientes, tais como a escola, manifesta dificuldades em compreender os direitos dos outros, em controlar seus próprios sentimentos e em aguardar os momentos adequados para dar vazão aos seus anseios. A criança sem limites não é livre, muito pelo contrário: ela é controlada pelos seus desejos. Ela passa a agir de modo que suas vontades sejam atendidas por todos, o que pode provocar repulsa em outras pessoas, inclusive de outras crianças.

Assim, a criança sem limites perde muitas trocas significativas, passando frequentemente a lidar com a exclusão social. O filho educado dessa forma vive sem referências de certo e errado. Ele precisa do contato com o outro, mas exige essa aproximação de maneira inadequada, deturpando as relações e gerando muito sofrimento para si e para a sociedade. A criança desenvolve-se com valores questionáveis que podem gerar atitudes violentas e disruptivas. Por isso, estabelecer limites é um posicionamento responsável, digno do amor que toda criança necessita e merece.

 

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Família e escola: uma aproximação necessária

12 maio

por Vivien Böck, psicóloga, diretora do Centro de Aperfeiçoamento em Psicologia Escolar

O senador Cristovam Buarque apresentou um projeto de lei que, resumidamente, obriga os pais dos alunos de todas as escolas brasileiras, públicas ou particulares, a comparecerem à escola de seus filhos, ao menos uma vez a cada dois meses a fim de acompanharem mais efetivamente a vida escolar deles.

Trata-se de uma proposta polêmica que vem suscitando críticas que alegam que esta participação familiar deveria ser decidida voluntariamente, pela conscientização da importância de seu envolvimento para o sucesso escolar do aluno. Sem dúvida, melhor seria se os responsáveis pela criança ou jovem participassem ativamente sem necessidade da pressão legal. No entanto, não é o que acontece. Ao contrário, cada vez mais os professores queixam- se que estão assumindo as funções paternas da educação, que as famílias estão delegando à escola a educação informal como a instalação de limites no comportamento como respeito pelos colegas e pela autoridade docente.

Além disso, diversos estudos comprovam que o desempenho escolar é positivamente influenciado pela valorização da aprendizagem por parte da família. Assim esta lei pretende que ao aumentar o entrosamento entre pais e escola, o processo educativo também melhore e tenhamos uma educação mais efetiva.

Por outro lado, ao adentrarem os muros das escolas, os pais perceberão e se envolverão com muito mais questões deste universo do que unicamente com o acompanhamento escolar dos filhos mas também com os aspectos institucionais, com a qualidade do ensino, as dificuldades que a escola enfrenta, os métodos e a formação dos professores. Ao se comprometerem com a aprendizagem também exercerão seu papel de cidadãos críticos e fiscalizadores daquilo que é oferecido como Educação. A exigência sobre a qualidade do ensino será maior, assim como a valorização da profissão docente e da necessidade urgente da sociedade e dos governos restabelecerem a Educação como prioridade nacional.

Já por parte da escola, esta terá também que mostrar um desempenho melhor, a começar por organizar reuniões mais produtivas e interessantes aos pais, não apenas uma repetição de encontros enfadonhos e desmotivadores da presença familiar. Se os pais forem exigidos a acompanharem a vida escolar dos filhos, a escola também será mais exigida por parte da família.

Estas duas instituições, família e escola, são constituintes da infância e da adolescência e juntas podem criar estratégias de ação e reflexão sobre a realidade da Educação. E sem dúvida, os mais beneficiados não serão apenas os estudantes, mas todos nós, a sociedade brasileira.

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Ensinar: exercício de imortalidade

10 fev

“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naquele cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais…”  (Rubem Alves)

O exercício da mediação dos processos de aprendizagem é o que, em diversos aspectos, nos capacita e nos insere nas mais abstratas camadas da cultura. Boa parte de tais mediações são promovidas pelo sistema escolar, e têm como figura principal o professor. É preciso entender que estes processos também atravessam e são atravessados pela afetividade das relações: negar ou gerenciar mal tais processos originam um mal estar comum a todos os envolvidos.

As descobertas da infância e da adolescência, a curiosidade genuína acerca de si e acerca do mundo, estão presentes na escola e são o motor de seu funcionamento. Acontece que, como todo processo, tende a passar do caos ao cosmos, e esta tarefa não é simples. Quando o desafio surge, a quem aquele caos incomoda? Como manejar a diversidade presente em uma sala de aula para que todos sejam capazes de aprender de forma significativa, entendendo os arranjos e composições que surgem do caos e ganham sentido no cosmos? É também sobre como entender a si mesmo e sobre o outro, em relação com o outro, para ter parâmetros de si. O professor precisa estar ciente disto, ser relembrado disto, para que sua prática dê movimento ao engenho próprio; de outra maneira, apenas contribuirá com o movimento estereotipado das engrenagens de uma prática morna.

Quanto mais souber dele mesmo, como pessoa e como profissional, quanto mais bem resolvidas forem suas relações e interações, mais ferramentas terá o professor para dar suporte ao real aprendizado, que sustentará percepções sobre o mundo e possibilidade futuras e presentes de ação nele.

Texto elaborado por Solan Ravi Costa Magalhães,
aluno do curso de Formação em Psicologia Escolar EAD

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As Consequências da Alfabetização Precoce

2 dez

Texto escrito de autoria de Ana Lúcia Machado, intitulado “Porque não alfabetizei meus filhos antes dos sete anos e as 6 consequências da Alfabetização Precoce”, disponível neste link.

“Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.”
Carlos Drummond de Andrade

Tenho dois filhos. O mais velho, entrou na universidade este ano e a caçula está às vésperas de começar o ensino médio. O que me confere o distanciamento necessário para uma avaliação consciente do resultado das opções que fizemos em relação à  educação deles.

Quando o primogênito nasceu, caiu em minhas mãos um livro intitulado “Como ensinar os bebês a ler”. Como sou uma leitora contumaz, logo dei conta de conhecer o  método de alfabetização de bebês proposto nessa publicação. Confesso que fiquei chocada e ainda depois de tantos anos, me lembro da sensação desconfortante que essa leitura me causou. No final do livro, havia textos poéticos de crianças alfabetizadas em tenra idade pelo método. Eram poemas que denotavam tal densidade, tamanha angústia nas entrelinhas, uma visão cinzenta do mundo, que me assustou e me fez perceber quão nefasta é a alfabetização precoce na vida de uma criança. E logo entendi a verdadeira linguagem da criança pequena, e a forma como ela apreende e aprende o mundo. Quando o meu olhar e do meu bebê se encontravam, e um sorriso iluminado se abria em seu rostinho, com sons e aquele balbuciar característico dos bebês, ficou claro para mim que o ser humano é um ser brincante e que seu desenvolvimento e aprendizado está fundamentado numa linguagem lúdica.

Lembro também da minha irmã caçula, mais nova que eu 17 anos. Ela foi uma criança tão brincante! Levava tão a sério seu ofício de brincar! Passava horas e horas concentrada, criando brincadeiras, construindo seus brinquedos. Quando chegou a hora de ir para o 1º ano escolar e ser alfabetizada, seu desejo por brincar ainda era tão gritante, que minha mãe, em sua sabedoria foi até a escola e pediu para a diretora deixá-la  mais um ano na pré-escola. E assim foi que feliz da vida ela pôde amadurecer e se preparar para a alfabetização no ano seguinte, sem prejuízo algum à sua vida escolar.

Foi observando o quanto as crianças precisam correr, pular, rolar, rodar, rir, e o quanto elas são curiosas, ávidas a explorar tudo que as cercam, que tive a certeza de que para meus filhos se desenvolverem de forma natural e saudável, o melhor a fazer seria favorecer o brincar. E desta forma optei por uma pré-escola com foco no brincar livre na natureza. O início do processo de alfabetização de ambos, só ocorreu a partir dos 7 anos, quando eles estavam prontos e maduros para as atividades intelectuais.

A natureza é uma grande mestra e criança aprende brincando. O brincar é uma atividade espontânea e nata em toda criança. O brincar ensina tudo o que os pequenos precisam aprender. Paulo Freire diz: “Primeiro a criança lê o mundo para depois ler as letras.” No contato com a natureza a criança aprende o que não pode ser ensinado nem pelos pais, nem por professores. A necessidade da criança de movimento é imensa e constante, isto a leva a conhecer e explorar o mundo que a cerca.  As vivências e brincadeiras ao ar livre proporcionam  inúmeras conquistas:

-Autonomia e segurança

-Conhecimento do próprio corpo,

-Habilidades motoras, destreza e equilíbrio corporal

-Florescimento da imaginação e fantasia

-Interesse e encantamento pelo mundo

-Vitalidade e saúde

Olhar uma criança brincando é reaprender a dimensão do humano. Quando brinca, a criança está inteira na brincadeira. Ela brinca com todo o seu ser.

Entretanto, o livre brincar está em declínio na sociedade contemporânea. Infelizmente a Educação Infantil está cada dia mais parecida com o Ensino Fundamental, por causa da ênfase na alfabetização. Atividades que requerem que a criança seja capaz de se sentar em uma mesa e completar uma tarefa usando lápis e papel, que antes estavam restritas às crianças de 5 e 6 anos de idade, são agora dirigidas às crianças ainda mais novas, que não têm habilidades motoras e não têm a capacidade de concentração para isso, com exigências de que devem concluir seus trabalhos e atividades, antes que possam ir brincar. O sistema escolar tradicional tem produzido crianças completamente desinteressadas pela escola.

As consequências da pressão escolar e alfabetização precoce são muito sérias e devemos estar atentos a elas:

1)Desvitalização  do organismo,

2)Empobrecimento da capacidade imaginativa e criativa

3)Apatia, desinteresse pelo mundo

4) Dificuldades  nos relações sociais

5) Agressividade

6)Stress infantil

Crianças que são tolhidas na sua necessidade de brincar terão dificuldades de decodificar o mundo. Stuart Brown, psiquiatra americano, pioneiro na pesquisa sobre o brincar, em seus estudos profundos sobre histórias de vida de assassinos e alcoólatras, descobriu a ausência do brincar na vida dessas pessoas. Seus anos de prática clínica comprovam que brincar bastante na infância gera adultos felizes e bem sucedidos e a capacidade de continuar nutrindo este ser brincante que somos, nos mantém joviais e saudáveis ao longo da vida. Brincar é vital.

Brincar, como disse Albert Einstein, é a forma mais plena de fazer ciência, de explorar e investigar as coisas.

Sei que remar contra a maré é mais difícil, mas neste caso vale a pena. Vale questionar o sistema e defender o direito das crianças viverem a infância como deve ser, com respeito, em sua plenitude, encanto e beleza. Como tão bem versejou Fernando Pessoa,

Quando as crianças brincam

E eu as ouço brincar,

Qualquer coisa em minha alma

Começa a se alegrar.

E toda aquela infância

Que não tive me vem,

Numa onda de alegria

Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,

E quem serei visão,

Quem sou ao menos sinta

Isto no coração.

Abraço

Ana Lúcia Machado

alfabetizacao

Enfrentando o Bullying nas Escolas

20 out

por Vivien Rose Böck, psicóloga e coordenadora do CAPE

O fenômeno bullying não é novo nas escolas mas, nos últimos anos, a psicologia escolar e a sociedade têm se debruçado com maior atenção em função de sua gravidade e aumento na frequência com que tem surgido. A palavra inglesa bullying deriva de bully que quer dizer valentão, brigão e denota um tipo especial de violência muito comum nas interações entre pares, especialmente entre crianças e adolescentes nas escolas. Consiste na imposição de violência física ou psicológica, de forma repetida, sem motivação aparente, em relações de desequilíbrio de poder.

Para que o fenômeno se verifique, é preciso que as vítimas sejam “selecionadas” pelos agressores, que passam então a inferiorizá-las com a repetição de agressões. Por isso, uma briga ou uma gozação eventual não se configura em bullying, pois é necessário que seja uma ação repetitiva. Também é muito comum ouvir que os alunos fizeram bullying com o professor: isto não é bullying, mas pode ser considerado falta de limites ou de respeito. Também não é bullying quando o professor ofende o aluno: isto é abuso moral. Bullying é entre pares, entre pessoas em categorias iguais – alunos com alunos, ou professores com professores. Entre os comportamentos que configuram como bullying estão ofender, humilhar, espalhar boatos, isolar, bater, perseguir, assediar, roubar, quebrar pertences.

É um problema mundial sendo encontrado em toda e qualquer escola, seja ela pública ou particular, rural ou urbana. Os adultos muitas vezes minimizam a importância destes fatos, principalmente os pais dos agressores, e a falta de resposta facilita a formação e a consolidação de modelos de comportamento, rotulando quem é vítima e quem é agressor.

Papéis relacionados ao bullying:

Autores ou agressores – em geral são alunos com pouca empatia. Podem provir de famílias com pouco relacionamento afetivo entre os membros ou com pais que exercem supervisão pobre sobre os filhos, toleram e oferecem como modelo um comportamento agressivo ou explosivo.

Nos EUA (2009), sabe-se que cerca de 60% dos autores de bullying, entre o 6º e 9º ano são condenados por pelo menos um crime até a idade de 24 anos.

Vários são os motivos que os levam a esta prática, entre eles: inveja (sucesso da vítima), preconceito, busca pelo poder (para o centro das atenções), mídia (o que vê na tela) e repetição (do modelo familiar).

Vítimas – são os alunos que sofrem as agressões. Não há um perfil único, mas frequentemente são alunos com poucas habilidades sociais. Têm poucos amigos, são passivos e não reagem efetivamente às agressões sofridas. Podem ser filhos superprotegidos e pouco assertivos.

Há também a vítima provocadora, que apresenta um funcionamento invasivo, intrometendo-se em conversas e brincadeiras, cometendo “trapalhadas” sociais que os outros da mesma idade evitam.

Os alunos vítimas passam a ter baixo rendimento escolar, resistindo ou recusando-se a ir à escola, apresentando distúrbios psicossomáticos, como dores de cabeça, dores de barriga e febre. Estudos demonstram uma forte prevalência de casos de depressão e forte ideação suicida.

Testemunhas – são a grande maioria dos jovens. Eles convivem, assistem a violência e se calam por medo de serem “a próxima vítima”. Sentem-se inseguros sobre o fazer e incomodados com a violência e também podem ter prejuízos acadêmicos e sociais. As consequências são perniciosas para todos os envolvidos. Em certos casos a situação se converte em um cenário fechado e clandestino.

Em alguns casos, a vítima acaba aprendendo que a única forma de sobreviver é se converter em um agressor, desenvolvendo a crença de que a violência é inevitável. Resulta também na diminuição da autoestima, tendência a isolamento e efeitos graves sobre o rendimento acadêmico.

O Bullying é um problema complexo e de causas múltiplas, portanto cada escola deve desenvolver sua própria estratégia para reduzí-lo. De modo geral, a escola deve:

  • Desenvolver programas de prevenção disseminando o conhecimento sobre este tema para os alunos, professores e pais;
  • Capacitar docentes e funcionários para o diagnóstico e desenvolvimento de manejos específicos;
  • Agir precocemente contra o bullying (quanto mais cedo cessar, melhor será);
  • Manter atenção permanente;
  • Orientar os alunos/vítimas e seus familiares, oferecendo apoio psicológico e encaminhar para o atendimento especializado quando necessário;
  • Conscientizar os alunos/agressores e seus familiares sobre as consequências do bullying e garantir compromisso destes com um convívio respeitoso;
  • A punição aos agressores deve ser vinculada a práticas restaurativas;
  • Colocar a disposição da comunidade escolar denúncias anônimas em caixa para recados, junto ao SOE ou com professores.

Bullying Escola Psicologia Escolar

Paternidade e sua Função no Cotidiano Escolar da Criança

18 out

Post de autoria da especialista em Gestão em Psicologia Escolar Michele de Assis Muller, com base em sua monografia “Paternidade e Parentalidade no Cotidiano da Criança: questionamentos e reflexões da Psicologia Escolar” , realizada sob orientação da profa. Vivien Bock.

O Brasil vivencia mudanças significativas nos arranjos familiares, desde o final do século XX, com a chegada da mulher no mercado de trabalho pela necessidade em contribuir com o sistema financeiro familiar e dos movimentos feministas. As novas configurações e estruturas das famílias exigem também uma reorganização dos papéis sociais, na forma como cada membro da família desempenha sua função.

Assim, a paternidade vem assumindo atividades que antes eram consideradas como responsabilidades exclusivas da maternidade, rompendo com o modelo da família tradicional em que o homem era o “provedor financeiro” e a mulher a “dona do lar”.

Essa temática tem recebido uma maior atenção em diferentes espaços através de pesquisas, discussões e reflexões a respeito de uma figura paterna participativa e consciente da sua importância em compartilha a responsabilidade de educar e de desejar se relacionar com seus filhos em todas as fases da vida, principalmente, no desenvolvimento do sujeito em idade pré-escolar. Saraiva, Reinhardt e Souza (2012) consideram que ser pai não é somente uma função biológica: implica no simbólico dos sentimentos e atitudes que demonstrem o desejo de estar presente na vida da criança, embora muitos pais se posicionem como meramente um suporte e apoio a mãe.

A escola é um espaço que acolhe as diferentes gerações e culturas em que nos deparamos com conflitos que podem escamotear o sofrimento tanto do educador, como da criança e de sua família (Bastos, 2009, p. 94). Há crianças que têm facilidade em se adaptar a novos ambientes por já ter vivenciado a separação da mãe, ao frequentarem berçários e creches. Essas crianças se desprendem da mãe pelo interesse e curiosidade de conhecer os brinquedos, pracinhas e outras crianças, vinculando-se à professora sem gerar ansiedades e preocupações aos adultos (Böck, 1996). As escolas, cientes que a criança pode apresentar o choro excessivo ao não querer se separar da mãe, sugerem a presença de uma terceira pessoa: o pai. De acordo com Böck (1996), a presença do pai é importante, pois a criança não sente a ambivalência que a mãe transmite pelo sentimento de culpa em ter que se separar do seu filho. Segundo a autora, o pai não está envolvido de maneira simbiótica com a criança, assim consegue ter consciência intelectual e emocional do quanto é importante a socialização para o desenvolvimento do sujeito. Tal sugestão tem o intuito de promover a participação do pai no contexto escolar, ao envolvê-lo na relação pai e filho(a). Para Dor (1991), sem passar pela instância de pai imaginário, nenhum pai real poderia e conseguiria estar no lugar do pai simbólico.  Silva & Piccinini (2007) relacionam como pai, o sujeito que assume novas tarefas e atos que favoreçam, no desenvolvimento infantil, a sobrevivência, a saúde, o cuidado e educação da criança.

A criança que vivencia a ausência do pai “real ou simbólico” no seu cotidiano escolar e familiar tem mais probabilidade de apresentar comportamentos agressivos, dificuldade de reconhecer limites e de aprender as regras de convívio social (Benczik, 2011). O relacionamento pai – filho(a) tem se mostrado significativo para o desenvolvimento da criança, influenciando na qualidade das relações interpessoais nos ambientes escolares.  Ao existir o desejo do pai em participar da vida do(a) filho(a), a qualidade da relação pai – filho(a) contribui para o bom desenvolvimento social da criança, em que a desenvoltura social é um fator de proteção para as crianças que ingressam em atividades escolares (Cia & Barham, 2009).

A Psicologia Escolar, nos dias de hoje, observa, escuta, analisa e intervém no cotidiano da escola, nas reuniões, ao perceber que pode estabelecer novas maneiras de escutar e olhar para a criança, evitando rótulos, diagnósticos imprecisos e hipóteses únicas (Andrada, 2005). Com isso, o Psicólogo Escolar trabalha em um contexto complexo envolvendo-se em todo segmento do sistema educacional na articulação de ações como a formação continuada, orientação de pais, as rodas de conversas com as famílias sobre diversos assuntos como: o desenvolvimento infantil e a importância das relações na vida social da criança. Estes movimentos são realizados na expectativa de sensibilizar a comunidade escolar para a importância da presença paterna no cotidiano da criança.

Parentalidade e Escola Psicologia Escolar

Referências Bibliográficas

ANDRADA, E.G.C. (2005) Novos Paradigmas na Prática do Psicólogo Escolar. Psicologia Reflexão e Crítica, 18(2), 196-199.

BASTOS, A.B.B.I. (2009) A escuta psicanalítica e a Educação. Revista: Psicólogo Informação, Instituto Metodista de Ensino Superior, 13(13), 91-98.

BÖCK, V.R. (1996) Professor e psicologia aplicada na escola. Porto Alegre: Kinder

CIA, F. & BARHAM, E.J. (2009) O Envolvimento Paterno e o Desenvolvimento Social de Crianças Iniciando as Atividades Escolares. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 1, p. 67-74.

DOR, J. (1991) O Pai e sua Função em Psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar.

SARAIVA, REINHARDT & SOUZA (2012) A função paterna e seu papel na dinâmica familiar e no desenvolvimento mental infantil. Revista Brasileira de Psicoterapia, 14(3): 52-67.

SILVA, M. R. & PICCININI, C. A. (2007) Sentimentos sobre Paternidade e o Envolvimento Paterno: um estudo qualitativo. Estudos de Psicologia. Campinas, 24(4) 561-573.

 

Vamos falar de suicídio na escola?

16 set

por Marcelle Durli Marcon – especialista de Psicologia Escolar pela FATO/CAPE.

Todos os anos, mais de 800.000 pessoas morrem por suicídio, o que representa uma morte a cada 40 segundos¹. O número mortes por suicídio é superior ao decorrente de homicídios e guerras combinados, sendo a segunda principal causa de morte entre jovens de 15-29 anos no ano de 2012². Estima-se que até 2020 poderá ocorrer um incremento de 50% na incidência anual de mortes por suicídio em todo o mundo². A cada cinco pessoas que planejam terminar com a própria vida, três efetivamente o tentam, e para cada suicídio efetivo, há mais de 20 tentativas prévias³. O comportamento suicida, portanto, costuma ser concebido em um continuum que se inicia com ideias de suicídio, evoluindo para o planejamento suicida, e posteriormente a tentativa de suicídio, resultando ou não em morte (4).

Logo, toda pessoa que fala sobre suicídio tem risco em potencial de cometê-lo e merece investigação e atenção especial². Contudo, apesar de convivermos diariamente com jovens com importantes manifestações depressivas associadas à ideação suicida, os quais não buscam ou não podem contar com apoio de familiares, amigos, profissionais da área da saúde ou educação, o suicídio segue sendo uma temática pouco abordada em nossa sociedade devido ao tabu e à dificuldade de se falar a respeito de morte (5).

Assim, urge a necessidade de implantar programas e estratégias de prevenção dos comportamentos suicidas na pauta das políticas, da saúde pública e também da educação, uma vez que estágios precoces do comportamento suicida podem se manifestar em idade também precoce, podendo progredir rapidamente para fases de relativa falta de resposta à influência familiar, ambiental e aos esforços tardios de prevenção (5).

A escola tem papel estratégico para a promoção e proteção da saúde dos alunos, podendo ser um local privilegiado para a identificação precoce de situações problemáticas, já que aspectos relacionados ao meio familiar, grupo de amigos e escola são de extrema importância para a qualidade de vida do adolescente (4).

O suicídio é um fenômeno universal e multifacetado, o que dificulta sua compreensão. Contudo, a negação desse fenômeno impossibilita que atitudes preventivas sejam tomadas em todos os âmbitos da sociedade, inclusive na escola. É de suma importância que os professores sejam instrumentalizados para informar e acolher seus alunos, identificando jovens em potencial risco e encaminhando-os quando necessário.

O papel do psicólogo escolar nesse contexto pode ser bastante abrangente e complexo. Primeiramente, porque introduzir um trabalho com suicídio no contexto escolar implica em quebrar tabus. Para tal, além de instrumentalizar os professores e auxiliá-los a lidar com demandas que podem mobilizá-los, é preciso sensibilizar a comunidade escolar sobre a importância desse tema, e realizar projetos também voltados a alunos e pais. Vale reforçar que o trabalho escolar não deve restringir-se à prevenção, mas deve preocupar-se também em como lidar com o impacto causado quando o suicídio ocorre dentro da comunidade escolar. Esse é outro trabalho importante para o psicólogo escolar: lidar com uma comunidade escolar fragilizada quando o suicídio invade seus muros.

Texto baseado na monografia da autora intitulada “Comportamento Suicida na Adolescência: o Papel da Escola na Prevenção”.

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¹WORLD HEALTH ORGANIZATION. Suicide. Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs398/en/, acesso em: 27 de agosto e 2016.

²ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA (ABP). Suicídio: informando para prevenir. Associação Brasileira de Psiquiatria, COMISSÃO DE Estudos e Prevenção de Suicídio – Brasília: CFM / ABP, 2014.

³BOTEGA, N.J.; BARROS, M.B.A.; OLIVEIRA, H.B.; DALGALARRONDO, P.; MARÍN-LEÓN, L. Suicidal behavior in the community: prevalence and factors associated with suicidal ideation. Revista Brasileira de Psiquiatria, 2005; 27: 45-53.

4BAGGIO, Lisandra et al. Planejamento suicida entre adolescentes escolares: prevalência e fatores associados. 2009.

5WERLANG, Blanca Susana Guevara; BORGES, Vivian Roxo; FENSTERSEIFER, Liza. Indícios de potencial suicida na adolescência. Psicologia Revista – Revista da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde. ISSN 1413-4063, v. 14, n. 1, p. 41-57, 2014

 

A Carreira em um Contexto de Incertezas

12 set

 por Patrícia Bandeira, professora do curso Teorias e Tendências em Desenvolvimento de Carreira e coordenadora do CAPE

O mundo mudou. Estamos vivendo um momento cada vez mais complexo e intenso, com múltiplas possibilidades e iniciativas surgindo a cada momento. Sendo assim, a carreira profissional na sociedade atual também se transformou, na medida que cada vez mais são os próprios indivíduos os responsáveis pela condução de suas carreiras, e não mais as corporações, como em décadas passadas.

O modelo tradicional de carreira, que vigorou até os anos de 1970, foi marcado pela estabilidade, enriquecimento e progresso profissional linear. As pessoas competiam por oportunidades limitadas de promoção e a subida de cargo era o indicador máximo de sucesso profissional. Em uma época em que as relações de trabalho previam continuidade, relações de longo prazo e lealdade mútua entre indivíduos e organizações, as trajetórias profissionais estavam alicerçadas quase que estritamente nas ocupações e cargos dentro das organizações.

Com as transformações das relações de trabalho a partir dos anos 70, tornando-se mais flexíveis e instáveis, o conceito de carreira precisou incorporar novos elementos, passando a explorar questões além das fronteiras estritamente organizacionais. Hoje, a ideia de carreira significa entende-la como uma série de experiências e de aprendizados pessoais, relacionados ao trabalho, ao longo da vida.  Nesse novo contexto, indivíduos são incentivados a alcançar empregabilidade e progresso profissional, de forma autônoma e independentemente de uma associação duradoura com a empresa. A trajetória profissional, portanto, deixa de ocorrer apenas no interior das organizações e passa a ocupar espaços mais amplos. Há inúmeras possibilidades de emprego, oportunidades inexploradas, centenas de cursos universitários e milhares de profissões, surgindo novas a cada dia.

Como pensar em carreira nesse contexto? Como atrair colaboradores ante um cenário tão diversificado e com tantas possibilidades? Como escolher uma profissão em um mercado em constante mudança? E como planejar a longo prazo, se grande parte das profissões futuras sequer existe hoje em dia? A incerteza ante tais questionamentos muitas vezes causa ansiedade nos indivíduos, e um questionamento permanente sobre qual o melhor caminho a seguir. Nesse ponto, destaca-se a importância do trabalho dos profissionais que atuam com aconselhamento de carreira, coaching e orientação profissional. Frente um cenário tão diversificado e incerto, sua atuação pode ser decisiva para que as pessoas possam fazer decisões profissionais que as realizem, tornando-as profissionais mais satisfeitos e que consequentemente geram um impacto positivo em nossa sociedade.

Multiple question marks on paper

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A personalidade do professor

3 set

 O educador menospreza a importância de sua personalidade no desenrolar de suas aulas. Há professores autoritários, “bonzinhos”, desorganizados, descontrolados, incentivadores, enfim, tantos tipos de personalidades quantos podem existir, pelo único fato de serem, antes de tudo, seres humanos.

Já se disse que tudo o que ocorre numa sala de aula passa pela personalidade do professor.

Por que um docente é mais tolerante do que o outro? E mais tolerante em relação a quais comportamentos? Por que um professor prefere trabalhar com crianças a trabalhar com adolescentes? Como foi adolescência deste ou sua infância?

É neste jogo de sentimentos que está a força da educação.

A personalidade do professor serve como modelo para o jovem. Modelo diferente do apresentado pela família. Modelo este, que poderá mostrar outras formas de ser, positivas e negativas.

O ser do professor não pode solucionar os problemas do aluno, mas pode mostrar uma esperança, uma escapatória de um ambiente neurótico, psicótico ou mesmo marginal.

Muitos alunos preferem permanecer na escola a voltar para casa. Essa preferência não pode ser atribuída, unicamente, ao grupo de colegas. Estaríamos, novamente, menosprezando a importância do docente como pessoa. Muitas crianças e jovens, ficam ou voltam à escola, sem ter compromisso de freqüentar aulas. Fazem-no para jogar e encontrar-se com outros colegas, que também lá estão, para se divertir ou, até, para namorar. São alunos que, muitas vezes, ficariam sozinhos em casa, porque os pais estão trabalhando, ou ficariam com alguma empregada. Outros buscam a escola em função de sentirem um clima “pesado’’ no lar, por diversas dificuldades que as famílias atravessam.

A escola, nestes momentos, não representa uma instituição de ensino, nem apenas um lugar de lazer. É também, um espaço onde o jovem se sente protegido, onde há pessoas que se preocupam com ele. Um local conhecido, onde, mesmo que seja repreendido, a repressão é sentida como contenção de impulsos que não consegue controlar. Se houver algum problema estes alunos sabem que alguém os ouvirá e tentará solucioná-lo de forma adequada. São alunos, que, quando cruzam com seus professores, nos corredores da escola, cumprimenta-nos alegremente e são correspondidos nesta demonstração de afeto.

Na escola, eles se sentem “em casa”. É bom estar ali. É como se fosse um colo gostoso, protetor, amigo.

E, além disso tudo, ainda crianças para brincarem com eles.

Mas a recíproca é verdadeira. Os professores demonstram grande satisfação ao serem cumprimentados, abordados para uma rápida conversa informal, ou quando recebem algumas brincadeiras de crianças ou jovens, que já foram seus alunos, anos passados. Lembranças que estes escolares lhes trazem, fazem com que riem sozinhos e comentem com colegas as situações recordadas e, como é bom, quando um aluno demonstra carinho, depois de tantos anos. Mas estas manifestações afetivas por parte dos alunos só ocorrem, quando estes professores deixaram neles, marcas de sua personalidade. Assim, também, os alunos que ficam no seu extraturno livre, na escola, só os fazem por sentirem que há personalidades afetivas, que lhes fazem bem e com quem querem continuar mantendo contato.

Não se pode menosprezar, de modo algum, a influência da pessoa do professor sobre a pessoa do aluno.

Tendo está consciência, é necessário que o docente tenha um bom autoconhecimento, é preciso autocrítica mas, também, um feed-back externo que pode vir de colegas, dos assessores dos setores especializados da escola e, até mesmo, dos alunos. Aliás, estes são especialistas em colocar apelidos que espelham perfeitamente as características mais marcantes dos professores.

No entanto, para isso o professor não pode continuar aceitando um ideal profissional tão elevado e permitir e aceitar-se como pessoa, sujeita a errar, a sentir e se reconstruir.

Lembrando Mosquera, 1978, que diz: “Educar num sentido dimensional supõe acordar de uma letargia, e este acordar é tomar posse do autodescobrimento e do crescimento interno que cada indivíduo precisa fazer para chegar a ser realmente uma verdadeira pessoa humana”.

Texto escrito por Vivien Böck – Psicóloga Clínica e Escolar, mestre em Psicologia Social e da Personalidade, Formação em Psicoterapia de Família e Casal, Professora na PUCRS, autora do livro “Professor e Psicologia Aplicada na Escola” e “Motivação para Aprender, Motivação para Ensinar”, coordenadora e professora do CAPE

“As crianças deixadas à sua própria sorte, ficarão sujeitas à tirania do próprio grupo”

23 ago

Nossa aluna, Claudia Maria de Lavor, psicóloga do curso de Formação em Psicologia Escolar EAD, descreve abaixo seu entendimento sobre a frase de Hannah Arend: “As crianças deixadas à sua própria sorte, ficarão sujeitas à tirania do próprio grupo.” Confira:

A esse respeito, a autora alerta sobre o risco das novas práticas pedagogias e “psi” introduzidas no contexto educacional a partir da modernidade. O advento da modernidade trouxe consigo os ideais de liberdade que de certa forma atingiram o modo de vida da sociedade e consequentemente as concepções educacionais existentes naquela época. Estes ideais eram marcados por um imenso repúdio as práticas disciplinares educacionais consideradas demasiadamente violentas. Na qual, crianças e jovens sofriam violências físicas e psíquicas nas escolas, era comum a aplicação de castigos e punições.  Hannah ressalta que a crise educacional era resultado da associação entre a pedagogia e a psicologia responsáveis pela formação de uma educação progressista.  A Sociedade Moderna se viu diante de uma revolução radical de todo o sistema educacional e para a autora parte daí o fracasso existente nos dias atuais.

Segundo Hannah, a criança precisa ser preparada para o mundo e a escola e a educação são peças fundamentais desse processo. Cabe a escola juntamente com a família a função de mediar essa introdução da criança no mundo público. Suas análises acerca desse tema teciam críticas aos métodos pedagógicos e psicológicos centrados unicamente na criança, no qual, a figura de autoridade passa a ser entendida de modo distorcido. Fazendo com que a criança se torne a figura central seja no ambiente familiar ou escolar. Ao repudiar práticas disciplinares baseadas em ações e discursos ditadores surge uma nova lógica de pensamento que se mostra contrária a todo e qualquer tipo de autoritarismo.

A sociedade atual encontra-se perdida diante desse dilema principalmente quando se refere à criação e a educação das crianças. O processo de negação ao modelo anterior foi tão fortemente estabelecido fazendo com que noção entre autoridade e autoritarismo seja tão comumente confundida por pais e professores. “Deixar a criança a própria sorte” significa deixar a criança sem esse referencial de autoridade, sem saber o que é certo ou errado, o que  ela pode ou não fazer. Ao falhar ou negligenciar na educação e nas ações inadequadas dos filhos os pais consequentemente estão contribuindo para a formação de jovens perdidos, abandonados ou até mesmo delinqüentes. A cada dia se torna mais evidente a figura do “reizinho da casa” e pais submetidos ao capricho e a vontade dos mesmos.

A autoridade é algo que um indivíduo necessita possuir, ou seja, está ligada a liderança, comando e postura. Ter autoridade com filho significa ter domínio, ter conhecimento, saber como agir ensinando-o o respeito às regras e limites. Ao contrário de ser autoritário, ou seja, aquele que impõe algo por imposição, geralmente fazendo uso da força física ou da violência verbal.  Portanto, para que essa figura referencial se constituía é necessário que pais e educadores aprendam ao longo do tempo construir relações com outro, baseadas na autoridade. Como forma de adquirir conhecimento e transformá-lo em sabedoria, desse modo, o processo de desenvolvimento de criança se tornará mais saudável.

Pais precisam compreender a importância do seu papel na formação do caráter e da personalidade de seus filhos. Trazer para si as responsabilidades, evitando que o processo educacional do filho seja terceirizado pela escola, babá ou por pelos próprios amigos. A escola precisa se readaptar e se reconstruir, estabelecer novas formas de ação que produzam discursos que não só atendam as demandas dos familiares, mas que também fortaleçam a figura do professor. O professor necessita ser mais apoiado em suas ações para que ele consiga executar sua função de educador na formação de valores éticos.

 

Parents Walking Son to School

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