Arquivo | Artigo RSS feed for this section

Existe pessoa certa para o lugar certo? Uma reflexão sobre a Orientação Profissional

27 maio
Texto escrito por Sofia Milene da Silva, aluna do curso de Formação em Psicologia Escolar.

A velocidade de transformação do mundo está cada vez maior, as mudanças acontecem nas mais diversas instâncias, inclusive a do trabalho. Considerando isso um fato, a visão de que o indivíduo e o próprio trabalho possuem estabilidade ao longe do tempo, não pode mais ser considerada válida atualmente. Isso vai diretamente de encontro com a Teoria do Traço-Fator, em que a ideia central era de que havia a pessoa certa para o lugar certo.

Considerar alguém habilitado para uma função com base em atributos mensuráveis por testes acaba sendo reducionista, visto que o indivíduo é composto por diferentes fatores, esses nem sempre são captados por sua autopercepção. Outro ponto importante a ser colocado é da instabilidade de características. Todos estamos em constantes mudanças, seja de comportamentos, pensamentos ou interesses. Não há como afirmar que uma pessoa se encaixará de todas as formas em um dado emprego por toda sua vida profissional. Atualmente não é mais incomum que um indivíduo passe por diferentes trabalhos ao longo de sua vida. Isso deve-se tanto à instabilidade pessoal, como citado anteriormente, como à instabilidade do mundo do trabalho e do contexto. Como dito na introdução, os âmbitos a nossa volta estão se transformando de maneira acelerada, e isso muito tem a ver com os avanços da ciência e da tecnologia, assim como as repetidas inconstâncias econômicas no país. Isso acaba por afetar diretamente a vida profissional de todos, seja por alteração nos interesses, nas necessidades e/ou nas capacidades.

Porém, seria um erro descartar totalmente a Teoria do Traço-Fator. Assim como a ideia de que existe pessoa certa para o lugar certo é reducionista, dizer que qualquer pessoa está apta para trabalhar em qualquer lugar é um equívoco. Se assim fosse, a Orientação Profissional não seria necessária. Cada função em um trabalho exige habilidades individuais, seja física, cognitiva, capacidades psicológicas, etc. Hoje, muitas funções requerem trabalhadores com maior capacidade de flexibilidade, facilidade com novas tecnologias e/ou interesse em estar em constante aprendizagem. É necessário investigar se o profissional está apto para desempenhar determinado serviço. Nesse sentido, os atributos mensuráveis pelos testes são bastante úteis.

A realidade do nosso país traz elementos específicos para serem pensados quando falamos em Orientação Profissional. O contexto socioeconômico obriga milhões de pessoas a escolherem seus empregos de acordo com suas necessidades, não possuindo recursos e oportunidades para que a vida profissional seja construída a partir dos seus verdadeiros interesses e habilidades. Como psicólogos, é preciso pensarmos a Orientação Profissional também dentro dessa conjuntura, para que o trabalho não seja encarado totalmente como uma atividade obrigatória desprazerosa, mas que o trabalhador possa construir significados positivos nele. Assim, o trabalho poderá assumir um papel mais saudável na vida do indivíduo, evitando desgastes físicos e mentais.

 

Você pode aprender mais sobre esse tema nos nossos cursos de Orientação Profissional na Escola e Formação em Psicologia Escolar.

Orientacao Profissional n

Como as disciplinas escolares podem inserir o tema sexualidade em seus conteúdos?

30 abr

Texto escrito pela aluna do curso de Formação em Psicologia Escolar, Dafne Caroline Zanata de Moraes

Dentro dos Parâmetros curriculares Nacionais, os temas transversais são aqueles que abrangem questões urgentes e presentes na sociedade. A proposta é que esses temas sejam trazidos como base pertinente à formação de sujeitos de forma integral, para além dos conteúdos disciplinares de cada área e garantindo a “compreensão e construção da realidade social, dos direitos e responsabilidades relacionados com a vida pessoal e coletiva, e com a afirmação do princípio da participação política” (MENEZES apud MEC, 2001).

Em relação ao tema da Orientação Sexual, a proposta é “ensinar o aluno a respeitar a diversidade de comportamento relativo à sexualidade, desde que seja garantida a integridade e a dignidade do ser humano, conhecer seu corpo e expressar seus sentimentos, respeitando os seus afetos e do outro” (MENEZES, 2001). Nessa proposta, abre-se espaço para a informação a respeito de conteúdos, diminuição de preconceitos e discutição de emoções e valores acerca do tema. O objetivo é que os alunos possam desenvolver e exercer a sexualidade com responsabilidade, conhecendo e valorizando o corpo, sentimentos e desejos e respeitando a diversidade.

Assim, a temática da sexualidade pode e deve ser trazida de diversas formas e em diferentes contextos, cabendo a todos educadores se envolver com o assunto durante suas aulas – e fora delas. As faixas etárias podem ser utilizadas como diretrizes para a forma como assunto será abordado, considerando a compreensão e questionamentos que acompanham naturalmente os alunos em determinados momentos do desenvolvimento.

Com alunos menores, por exemplo, pode-se trabalhar mais diretamente em cima da curiosidade existente sobre transformações corporais, reprodução e zonas erógenas, enquanto com alunos maiores, já se aborda mais a potencialidade erótica do corpo, a relação com o outro e reflexões acerca de valores e discussões de identidade e gênero.

Para além da relação com o corpo, é importante também trabalhar questões de saúde, como as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs e AIDS). Esse é um eixo que deve ser abordado com informações sempre atualizadas sobre formas de transmissão, tratamentos, além de discussões que garantam a diminuição de preconceitos e discriminações. Além disso, a questão da gravidez indesejada também deve ser assunto presente, com informativos sobre métodos contraceptivos, além de um trabalho que aborde dados de realidade e traga espaço para reflexões acerca de dúvidas, sentimentos e responsabilização presentes na paternalidade.

Para isso, é possível se organizar um programa estruturado, criado com base nas demandas e interesses da população atendida, de fora didática e informativa. Diversas ferramentas podem ser utilizadas, como aulas expositivas, dinâmicas de grupo, palestras e elaboração e acervo de materiais para enriquecer a proposta. Além disso, esse programa deve ser estabelecido em cima da necessidade de respeito e tolerância, sem sobreposições de valores e com informativos embasados em dados científicos.

Todo o conteúdo programático de Orientação Sexual pode ser trabalhado em parceria da escola com a família. Porém, a proposta não é que a escola substituía ou concorra com a formação realizada pela família dos alunos. O intuito é que o trabalho da escola seja complementar, informativo e respeitoso aos valores de cada dinâmica existente. Assim, a escola não deve julgar, mas sim se portar com respeito às diferenças expressas pela família, garantindo um ambiente que acolha as diferenças e valorize o respeito e tolerância.

Além do programa em si, para garantir que o assunto seja tratado com respeito e sem preconceitos, o corpo docente e demais profissionais da escola devem ter um treinamento, além de espaço para também poderem trabalhar suas próprias questões em relação ao assunto e entenderem seus papeis no processo de abordagem e educação sobre a temática.

A família também deve ser comunicada sobre o programa antes de ele iniciar, trazendo informações e espaço para questionamentos. A família deve saber a proposta do projeto e entender que não se busca sobrepujar os seus valores, além de ser orientada a respeito de manejos sobre a temática da sexualidade com os filhos. A escola deve estar preparada também para lidar com alguns casos de resistência ou até mesmo proibição da participação dos filhos no programa, o que deve ser respeitado, com possibilidade dos alunos serem dispensados.

Assim, a proposta do programa de forma transversal deve envolver a temática em vários contextos, formas e abordada por diversos agentes da escola. O essencial é que os alunos tenham acesso acerca do tema e espaço para reflexão, podendo questionar e discutir valores e sentimentos. A escola como ambiente educativo deve estar preparada para garantir isso, não só na abordagem estabelecida, como no contato com a família e na formação e treinamento dos profissionais para que aconteça de forma aberta, responsável e respeitosa.

Sexualidade

Referência:

MENEZES, Ebenezer Takuno de; SANTOS, Thais Helena dos. Verbete transversalidade. Dicionário Interativo da Educação Brasileira – Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <https://www.educabrasil.com.br/transversalidade/&gt;. Acesso em: 16 de abr. 2020.

Quer saber mais sobre o tema? Inscreva-se nosso curso de Formação em Psicologia Escolar EAD ou no de Psicologia Escolar no Ensino Fundamental

Burnout e Pandemia

16 abr

por Vivien Rose Bock, psicóloga e coordenadora do CAPE

O ano letivo de 2020 mal havia começado, com apenas um mês de aulas e recebemos o impacto da pandemia Covid 19. As autoridades médicas e governamentais decretam a suspenção das aulas presenciais e se instituem aulas online, o ensino remoto para todos os níveis escolares.

E de uma hora para outra, os professores necessitaram transformar seu programa pedagógico construído ao longo de vários anos em uma linguagem nova, editando, postando vídeos, baixando aplicativos… Como adaptar conteúdo num sistema que os docentes de ensino fundamental e médio não tem o domínio, a familiaridade e principalmente o tempo necessário para isso? As professoras devem ensinar ao mesmo tempo em que estão aprendendo e rápido porque amanhã já é outro conteúdo. Além disso recebem dos pais a queixa, com toda a razão, que não têm didática para repassar o ensino aos filhos mas certamente elas próprias prefeririam atuar junto aos seus alunos, perto deles, olho no olho. Na tela aparecem rostinhos pequenos, às vezes com pouca luz, sem a energia da sala de aula.

A pressa da inovação, do despreparo, da angústia de não dar conta, do estresse e do medo de adoecer por este inimigo invisível pode acarretar em burnout. A síndrome de burnout é compreendida como um processo dinâmico que se estabelece gradualmente, iniciando com o esgotamento emocional associado a sentimentos de baixa realização profissional e ineficácia sendo que posteriormente podem surgir comportamentos de afrontamento e ceticismo. Os aspectos citados como desencadeadores de burnout são: o excesso de trabalho, a falta de controle decisório sobre a própria profissão, remuneração insuficiente e recursos internos inadequados para fazerem frente às grandes demandas educacionais (Maslach & Leiter, 1999). Além disso, temos o agravante da ameaça de contaminação e o distanciamento social imposto, que trazem por si só sentimento de estresse.

No entanto podemos criar algumas estratégias de proteção e alternativas para minimizar os efeitos nocivos deste desgaste imprevisto. Estudos comprovam que uma rede de apoio social é fundamental e se constitui no principal recurso para fazer frente a burnout. Este suporte social provém dos vínculos afetivos com a família, com os amigos e com colegas.

Mas neste período de quarentena estão distantes, cada um em sua casa, como buscar este apoio? Aproveitando do conhecimento de internet que a própria crise nos forçou a adquirir, e a qual alguns já tinham antes. Grupos de whatsapp entre colegas, consultas psicológicas online e, claro, e o apoio familiar. Outros recursos para o reforço emocional são a meditação e técnicas de mindfulness, quando somos o centro de nossa atenção.

E não podemos esquecer do bom humor que “é o melhor antídoto contra as queixas, pois os problemas, as falhas, podem ser motivos de graça” (Slavutzki, 2015). Manter o bom humor não apenas para sua vida cotidiana mas inseri-lo nas aulas online, brincar com os alunos, com os pais agora professores. A professora bem humorada é boa consigo e com os demais, e não é sádica nem severa, tolera as falhas e ri delas. A pessoa pode assim manter seu amor próprio até mesmo nas situações de fracasso ou de desafios como estes tempos estranhos em que estamos vivendo.

Por outro lado, o reconhecimento social do esforço dispendido é um elemento imprescindível de retroalimentação que injeta ânimo nesta caminhada e por isso o CAPE vem através deste texto manifestar nosso agradecimento não apenas aos profissionais da saúde mas também aos da Educação e nossa admiração por sempre se reinventarem para se superarem.

4ad9cc65512ca06f9f9639ef84cda25d_QGSNW8tKdIAy4fS9By

Você encontra mais conteúdo sobre Docência e Burnout nos nossos cursos EAD Professor como Pessoa e Profissional e Formação em Psicologia Escolar  – realizados 100% online e com certificado ao término das aulas.

 

Comunicação Não-Violenta: O que é e como praticar?

7 abr

Texto do psicólogo Felipe Oliveira, aluno do curso de Especialização de Gestão em Psicologia Escolar

O contexto escolar é nutrido de relações interpessoais baseados em poder e dominação. Pensando em adolescência, o caráter punitivo na comunicação é lei e, dentro da escola, o “valentão” estará sempre em evidência. Tal personagem geralmente é construído a partir de uma relação de submissão entre a figura adequada à norma social e aqueles que destoam da mesma. Geralmente, quanto mais distante da figura padrão do “homem” e da “mulher”, mais os alunos tendem a ser expostos a diferentes tipos de violência.

O autor Frederico Mattos traz esta perspectiva dentro do meio digital, com alguns exemplos do Youtube, em que não faltam palavrões e afrontas mais do que violentas, dotadas de conteúdos explícitos e depreciativos, além de homofóbicos e sexistas. Estes são trechos que desconsideram completamente aquele que está sendo alvejado por ele, tendo como objetivo apenas a própria necessidade do agente de destilar ódio seja para quem for. Narrativas como esta impossibilitam – e de qualquer forma, nem gostariam que houvesse – o diálogo entre as duas partes. A interação entre duas pessoas que visam a construção pressupõe fatores como respeito e horizontalidade, onde ambos possam apresentar seus argumentos e ouvir o outro com humildade e atenção.  Ao nos expressarmos de forma violenta estamos, em última estância, falando mais sobre nós mesmos do que efetivamente nos pondo ao diálogo.

Ressentimento, raiva e frustração são algumas das sensações que podemos sentir ao nos comunicarmos de uma forma naturalmente violenta. Tal prática tende a tornar toda e qualquer relação interpessoal fria, desinteressante e pouco afetiva.

Os comportamentos agressivos na internet têm se acentuado nos últimos anos. Em tempos de pós-verdade, onde qualquer um que tenha opiniões ou traga fatos incongruentes com a pessoalidade do internauta é considerado mentiroso ou inimigo, o personagem social agressivo e depreciador tornou-se protagonista da realidade digital, o que nos leva a refletir sobre uma diferente perspectiva. A internet, sendo núcleo ativo da “Sociedade de informação”, possibilita a criação e proliferação dos “odiadores”, tornando grupal uma figura que, em tempos pré-digitais, seria vista como frio e pouco sociável. Ao endeusarem a figura individual, as redes sociais cumprem papel fundamental na geração de “odiadores”. Estarmos cercados digitalmente de infinita informação é uma ilusão genialmente orquestrada. Tudo o que vemos nas redes é fruto de nossos interesses pessoais. Nossos aparelhos telefônicos são equipados com microfones que gravam nossas conversas e transformam-nas em anúncios comerciais. Selecionados nossos amigos, inimigos e excluídos. A internet não é, de forma alguma, ambiente reforçador de diálogo. O que esta faz é apenas nos aproximar daqueles que são parecidos conosco, e não o contrário, reforçando ainda mais o caráter violento com o diferente.

A abordagem da Comunicação Não-Violenta nasce de conflitos vivenciados pelo psicólogo Marshall Rosenberg na infância. Este, depois de formado, realizou pesquisas sobre os fatores que afetam a capacidade humana de se manter compassivo e através destes estudos compreendeu o papel crucial da linguagem e do uso adequado de palavras. Desenvolveu então uma abordagem que valorizasse e enaltecesse a conexão entre pessoas através da compaixão, conhecida como Comunicação não-violenta (CNV).

A Comunicação Não-Violenta objetiva resgatar no ser humano o que há de melhor: emoções, valores e capacidade de se expressarem com honestidade, tendo atenção ativa voltada para o outro através da empatia, ou como diz o autor “mergulhando nas verdadeiras necessidades do outro e não em sua vontade de parecer altruísta”.

Na tentativa de estruturar e tornar a prática não violenta uma opção possível, Marshall identifica quatro componentes principais da Comunicação Não-Violenta, sendo eles:

  1. Como se expressar com honestidade;
  2. Como ajudar os outros e ouvir com verdadeira empatia;
  3. Compaixão consigo mesmo;
  4. Raiva;

No primeiro passo, o autor desmembra o tópico em algumas partes. Estas partes trabalham a importância do reconhecimento dos próprios sentimentos e como usá-los para demonstrar suas insatisfações em momentos de stress. Um diálogo resolutivo deve levar em consideração o interesse do comunicador em efetivamente solucionar o problema, e não apenas verbalizar o que sente de maneira agressiva e tóxica. Exalta-se também a neutralidade frente a observação, priorizando sempre uma leitura descritiva dos fenômenos apresentados. Julgar a posição do outro não é axioma de uma linguagem resolutiva e não-violenta. Marshall também aponta a necessidade de reconhecer nossos próprios sentimentos e aceitar que eventos externos são apenas gatilhos motivacionais para descarga de possíveis angústias não relacionadas com a experiência em questão. É importante salientar que a comunicação não-violenta não é sinônimo de passividade. Enquanto parcela fundamental de um diálogo, o comunicador não-violento não só reconhece os sentimentos do outro, mas também demonstra as suas próprias limitações, afim de resolver o problema da melhor maneira possível.

O segundo passo consiste no aprendizado acerca da escuta empática. O autor disserta sobre a constante necessidade que temos de resolver o problema da nossa perspectiva, sem dar espaço para o outro e exemplifica isto com situações de luto. Existem diversas abordagens as quais podemos aderir para conversar com alguém que recentemente perdeu um ente querido. Porém, grande parte das vezes estabelecemos uma relação hierárquica entre nós e o outro, numa lógica vertical de relacionamento. “Eu” não estou passando por isso e meu papel é trazer a pessoa que está para meu estado de não-sofrimento. Essa ideia torna a responsabilidade unilateral e não pensa na vivência daquele que está sofrendo. Apesar de termos sempre boas intenções, comentários como “Não fique assim” e “Vai passar, tudo passa” abafam a experiência do indivíduo, tornando aquele momento importante “só” uma fase passageira e não digna de atenção. A empatia faz com que escutemos ativamente a experiência, e não só na esfera verbal. Ler e interpretar a linguagem não verbal do indivíduo é fundamental para que participemos da experiência do mesmo, ainda que isso signifique permanecer em silêncio.

O terceiro passo é a “compaixão consigo mesmo”. Neste tópico, o autor defende a importância de tratarmos a nós mesmos com empatia, frente a problemas apresentados como oriundos das nossas ações. Julgar-se afim de amenizar a situação também é o desperdício de uma oportunidade de crescimento, além de potencializar situações de stress e má resolução de conflitos com demais pessoas envolvidas. Em linhas gerais, o autor enaltece a possibilidade de, ao invés de procurar uma “solução” simples de autoacusação, prefere-se identificar todas as variáveis e forças em jogo afim de se colocar alinhado com os valores presentes na situação.

Por fim, o quarto e último passo da comunicação não-violenta é a raiva. Dentro da CNV, a raiva é identificada como uma máscara que esconde a realidade frágil de um indivíduo frente a situação exposta. A vulnerabilidade não tem espaço na atuação de uma pessoa “durona”, que evita constantemente ser alcançada através do diálogo empático e construtivo. Frente a acessos de raiva, é necessário que se respire fundo e analise a situação cuidadosamente. Raramente a situação em si é a desencadeadora da raiva. Na maioria das vezes, em contrapartida, a emoção aflorada advém do significado atribuído por nós frente ao fenômeno experienciado.

A CNV, aliada a mediação de conflitos, traz muitos benefícios para ambientes nos quais o conflito é constante, comprovando eficácia e utilidade no contexto escolar. Em tempos de conexões digitais e hipervalorização do egocentrismo, olhar para o outro sem julgamentos é um ato de coragem e, para que isso aconteça, empatia e neutralidade frente ao outro são conceitos fundamentais. Através da capacitação correta, a CNV tem caráter duradouro e atravessa gerações dentro de escolas. A psicologia aliada a gestão torna essas práticas possíveis. Tornar-se empático e promover o acolhimento, em uma realidade hostil, é sinônimo de coragem. A violência e a discriminação são grandes monstros hostis que permeiam toda a realidade escolar, sendo dignas de enfrentamento por todos os segmentos da comunidade. Não pode haver mudança estrutural se ela não partir de todos. Como diz M.S. Cortella: “Se correr, o bicho pega… Se ficar, o bicho come. Se juntar, o bicho foge.”

kelly-sikkema-4le7k9XVYjE-unsplash

Quatro Fatores para o Comportamento Agressivo das Crianças

28 fev

Uma das principais demandas que recebemos das escolas é sobre como dar limites em sala de aula. Casos de indisciplina, comportamentos agressivos e agressões em sala de aula são comuns, e requerem o manejo apropriado dos educadores nessas situações.

O novo livro da psicóloga Vivien Rose Bock, intitulado Psicologia Escolar na Educação Infantil, tem um capítulo dedicado a essa questão. A autora coloca que existem quatro fatores principais que contribuem para o comportamento agressivo das crianças, e a maioria está relacionada à postura e ao exemplo de pais e educadores:

  • Eventos frustradores para a autoestima: como quando a criança é criticada por outro colega ou desqualificada em alguma atitude;
  • Permissividade: quando comportamentos inadequados não são reprimidos, a criança aumenta a frequência e a intensidade em suas agressões. Isso ocorre quando a família ou a professora são do tipo laisser-faire: por não quererem se incomodar, permitem pequenas transgressões que se tornam uma bola de neve, criando para o aluno dificuldade para distinguir o que pode ou não fazer;
  •  Modelo e imitação: ocorre quando adultos que servem de modelo para a criança são pessoas agressivas, que agridem fisicamente ou gritam com ela. A criança entende que também deve agir assim frente à frustração;
  • Punições por agressão: semelhante ao anterior, configura-se quando as sanções são puxões de orelha, beliscões, sacudidelas ou agressões verbais. É importante estar alerta para que isso não ocorra por parte de alguma educadora estressada ou sem preparo para lidar com crianças pequenas.

Sendo assim, é fundamental entender esses fatores, e buscar trabalha-los junto com a equipe de professores e sensibilização com as famílias, com o intuito de prevenir este tipo de comportamento no ambiente escolar.

agressividade

Se quiser saber mais, essa abordagem é estudada nos cursos de Especialização de Gestão em Psicologia Escolar, Formação em Psicologia Escolar EAD, Psicologia Escolar na Educação Infantil EAD e O Papel da Escola na Formação de Valores e Limites EAD – todos com inscrições abertas.

Para adquirir o livro Psicologia Escolar na Educação Infantil, clique aqui.

Reprovação: o que aprender desta lição.

26 nov

por Vivien Rose Bock, diretora do CAPE

Eis que chegam os últimos dias do ano letivo e os resultados finais são divulgados. A maioria dos alunos segue em frente para o próximo ano mas sempre há os que reprovam.

A reprovação é uma situação delicada e que merece uma atenção muito especial, é necessário debruçar-se sobre este resultado e entender o seu significado, que é diferente para cada aluno, para cada família e para cada professor.

A repetição deveria ser encarada como uma nova chance para o escolar de aprender o que não foi devidamente assimilado mas certamente é o sentimento de fracasso que se apresenta nesta situação, principalmente para o aluno. Seus colegas conseguiram passar e ele ficou para trás. A auto estima sofre um forte abalo.

– Por que eu não consegui? Por que os outros foram adiante e eu não? Eu sou burro, já sabia que ia rodar! Como enfrentar a família, pais, irmãos e amigos? E no ano que vem vou para a turma dos menores, vou ser o mais velho?

Sentimentos de fracasso, vergonha, raiva da escola, dos professores, de si mesmo.

E como a família lida com esta situação? O filho é uma decepção, rodou porque quis, não estudou, é malandro. A filha tem dificuldades, coitadinha, se esforça mas não consegue acompanhar. A escola não tem metodologia didática para ensinar crianças como meu filho, só consegue educar de um jeito tradicional…

Os alunos rodam por vários motivos e é fundamental que a escola consiga definir quais as causas que dificultaram a aprendizagem suficiente para a aprovação de cada estudante pois só assim o aluno, sua família e a própria instituição escolar podem entender e criar estratégias para solucionar estas dificuldades.

Como ajudar emocionalmente frente à reprovação escolar

Em primeiro lugar penso que a escola deve se preocupar em apoiar os alunos e familiares neste momento sendo continente de seus sentimentos e atenta principalmente para a auto estima da criança ou adolescente.

É importante deixar claro que ninguém é burro ou incapaz porque precisa repetir um ano e que aprender o que não conseguiu é fundamental para a consistência dos seus conhecimentos. Muitas vezes, o aluno que se apresenta fraco academicamente num ano, no próximo consegue muitos bons resultados justamente porque reviu conteúdos que já tinha aprendido parcialmente e então os compreende de forma completa e sua autoestima cresce.

Também é comum a repetição ser oriunda de imaturidade emocional ou cognitiva, de alunos que entraram muito cedo em relação à faixa etária da turma e das exigências escolares daquele período. Assim a repetição se torna um ajuste etário, o aluno acompanhará com mais tranquilidade o que será solicitado, com menos estresse e com mais chance de sucesso.

Por outro lado, se a reprovação foi motivada por “malandragem”, “ preguiça”, se o aluno não fazia seus temas, não estudava para as provas, só ficava no celular e dormia muito tarde, não só o aluno deve rever seus comportamentos como também a família precisa entender que ele ainda não demonstra autonomia suficiente para se organizar e assumir as responsabilidades escolares sozinho. É importante orientar esta família de como manter um controle e auxílio para com o filho, sem contudo assumir seus deveres. No entanto, sabemos que muitas famílias não conseguem cuidar de si mesmas e a escola (psicóloga, coordenação e professores) deve estar então mais próxima deste estudante no próximo ano, acompanhando seu desempenho e resultados mais de perto e auxiliando-o na organização escolar.

No entanto, os resultados negativos que levam à repetição, podem ser sintomas de distúrbios emocionais existentes e a reprovação pode desencadear um processo depressivo importante que deve ser alertado à família e tratado com o aluno. Neste caso, devemos analisar o histórico pessoal e familiar, os relacionamentos afetivos e sociais e indicar acompanhamento psicológico para o fortalecimento emocional do jovem.

É sempre interessante ajudar a enxergar que a reprovação, apesar de não ser agradável a ninguém, não se trata de algo incomum, que num primeiro momento é realmente chato e triste, mas que em todos anos se apresentam alunos que se beneficiarão com o que naquele instante parece ruim. É importante não banalizar a situação, realmente várias coisas não deram certo durante o ano letivo e deverão ser revistas para o próximo, mas também não se trata do fim-do-mundo. Ficar chateado ou chorar fazem parte de enfrentar as vicissitudes da vida e também estes sentimentos nos amadurecem e levam à uma reflexão mais profunda de como entender o que deve ser modificado. Até mesmo a alegação frequente de que perderão seus amigos pode ser relativizada, pois continuarão os encontrando na escola e também podem marcar atividades fora dela. Além disso um novo grupo de amigos irá se formar ao ingressarem numa nova turma, como aconteceu quando ingressou na escola.

Ás vezes, surge também a preocupação de como comunicar aos outros (colegas e familiares) da reprovação, principalmente pelo receio de sofrer alguma gozação ou reprimenda. Em primeiro lugar deve o próprio aluno colocar a situação não como um fracasso, mas como uma oportunidade de se dar bem na vida, de melhorar seus conhecimentos e habilidades e ainda criar novas amizades.

Não podemos esquecer que a reprovação é também um resultado da escola e portanto merece uma reflexão séria de sua participação ou ausência neste fracasso escolar. A isenção de responsabilidade, mesmo que parcial, não possibilita uma mudança no que deve ser alterado para evitar novas reprovações como uma didática diferente, um olhar mais atento, um acompanhamento mais próximo do aluno e de sua família. Os conselhos de classe não devem servir apenas para fechar as notas e definir os destinos escolares dos alunos mas devem também propiciar a auto crítica de todos os envolvidos no processo de ensino/aprendizagem, corpo docente e equipe pedagógica, incluindo aí a psicóloga escolar.

A reprovação de um aluno é a última lição do ano e temos que aproveitar para todos aprendermos algo com ela.

Estresse de Final de Ano na Escola

4 nov

por Vivien Rose Bock

Inicia-se novembro, mais um mês e terminou o ano.

Costumo dizer que é a época de maior nível de estresse escolar pois resultados começam a se definir, fracassos e vitórias se configuram, é a reta final para consolidar o que se construiu durante todo o ano.

A síndrome de Burnout chega no seu auge, pois além do acúmulo do trabalho cotidiano somam-se a ansiedade e pressão dos alunos e suas famílias para alcançar a média mínima necessária para “passar de ano”, quem fica em recuperação, quem já não tem mais chance… como se este resultado dependesse apenas da boa vontade docente.

Por outro lado, é a premência de fechar as notas, as listas de presença, os relatórios exigidos pela secretaria, pela coordenação, pelo SOE.

E se não bastassem os aspectos anteriores, nas escolas privadas, há a dúvida da permanência no emprego no ano que vem. É nesse período que “a dança das cadeiras” dos profissionais da Educação começa. Quem será demitido, quem mudará de função, quem lecionará em outro nível?

A síndrome de Burnout ou síndrome de esgotamento profissional é um tipo de estresse ocupacional que acomete profissionais que trabalham com um tipo de cuidado, havendo uma relação direta, contínua e altamente emocional com outras pessoas.

Como sintomas mais comuns estão:

  • Exaustão emocional que é a sensação de esgotamento tanto físico como mental, sentimento de não dispor mais de energia para absolutamente nada;
  • Despersonalização, que resulta em contato frio e impessoal com os alunos passando de cinismo e ironia à total indiferença e a
  • Reduzida realização profissional, o tão frequente sentimento de insatisfação com as atividades laborais, baixa autoestima, desmotivação.

E é justamente neste cenário que se faz necessária a intervenção do psicólogo escolar junto ao corpo docente, funcionários e equipe diretiva da escola. Sabe-se que “o suporte social adequado no trabalho está associado com maior satisfação do profissional e são os vínculos estabelecidos entre os colegas de trabalho que permitem que o professor se proteja do desgaste cotidiano da docência”. (Sortto & Ramos, 1999). Portanto, principalmente neste período de final de ano, a melhor defesa contra Burnout consiste no fortalecimento da cooperação grupal entre os professores e demais funcionários escolares. Neste sentido, pode-se propor técnicas de dinâmica de grupo que reforcem a união grupal e o cuidado de todos com todos para a diminuição do estresse. Além do sentimento grupal, pode-se incluir exercícios de meditação e mindfullness que auxiliam no alívio da pressão a nível pessoal.

Penso também ser importante o psicólogo escolar se fazer presente individualmente, tendo uma palavra de incentivo a cada docente e funcionário, colocando-se à disposição para ouvir e pensar conjuntamente sobre alguma situação mais difícil (e neste período há várias) de resolver.

Enfim, é mais do que nunca o momento de unir energias e ser o continente das reflexões dos fracassos e vitórias do final do ano letivo.

 

Para entender melhor os impactos e a prevenção da Síndrome de Burnout, veja nossos curso de Professor como Pessoa e Profissional, Formação em Psicologia Escolar EAD ou a Especialização de Gestão em Psicologia Escolar

Pense nos seus Professores – Homenagem ao Dia do Professor

15 out

por Vivien Rose Bock

 

Pense nos seus professores, de quem você lembra? E por que você lembra? Qual o motivo desta lembrança, depois de transcorridos tanto tempo?

Se buscarmos em nossa memória, a imagem dos professores que mais marcaram a nossa vida, certamente lembraremos muito mais de como eram como pessoa, seu estilo pessoal, seu comportamento, enfim sua personalidade, do que aquilo que nos ensinaram a nível de matérias escolares.

Lógico que os conteúdos ministrados foram fundamentais para nossa formação, mas dificilmente distinguimos, no mar de nossas recordações, quem e quando nos ensinaram determinada lição.  O que aprendemos através das disciplinas pedagógicas fazem parte de um grande bloco de conhecimentos que se tornam relativamente indistintos sobre quando e por quem foram lecionados.

A pessoa do professor é que nos traz recordações positivas ou não, divertidas ou angustiantes, construtivas ou frustrantes.

Alguns terão a terna lembrança de uma educadora acolhedora, que facilitou o ingresso na escola, longe do colo materno; do professor que acreditou na competência do aluno e o incentivou a superar uma situação que lhe era difícil; do docente parceiro e bem humorado ou daquele seguro e tranquilo em sua autoridade. Mas também ocorrem recordações dolorosas de professores rígidos e que tonavam a aula tensa; de humilhações sofridas por deboches de um docente perverso; dos gritos e agressões dos professores inseguros e estressados ou das aulas enfadonhas dos mestres frustrados.

A personalidade do docente é tão importante no processo de ensino/aprendizagem que em muitos momentos é confundida com a disciplina que ensina. Quantas vezes alunos que não gostavam de uma matéria em um ano, passam a apreciá-la, como por encanto, na série seguinte? Os alunos, frequentemente, gostam da disciplina quando gostam do professor, as aula são percebidas como interessantes quando o professor é estimulante e tem bom vínculo com o escolar. Mas o contrário também ocorre, sendo que uma matéria é considerada chata quando o docente é chato, difícil quando o professor é distante.

Assim também, muitos professores, optaram em  se tornar  um profissional da Educação pela influência de um modelo positivo recebido de um mestre em sua vida escolar.

Todo conteúdo ministrado é feito através do professor através de sua personalidade, de suas idéias, de seus valores e comportamento, culminando no relacionamento construído com seus alunos. Portanto, a pessoa do professor é tão importante quanto os conteúdos que leciona.

Por isso professor, pense nos seus alunos, como será que eles se lembram de você? Como você quer ser lembrado?

Aos professores que nos formaram através de uma aprendizagem significativa, com segurança e carinho, nosso agradecimento.

Psicologia Positiva na Escola

4 out

Por Patrícia Bock Bandeira

Você foi chamado na escola para ter uma reunião a respeito do comportamento do seu filho. Em geral, a primeira coisa que vem na cabeça é “ihh, o que será que esta criança aprontou?”.

Temos essa tendência a pensar que vamos vivenciar uma situação ruim. Em parte porque raramente vemos a escola chamar os pais de alunos com bom rendimento ou comportamento para dar um elogio, então já presumimos que vamos receber alguma notícia ruim.

O inverso também é verdadeiro: quantas vezes os pais solicitam uma reunião com um professor ou professora para reconhecer a qualidade de uma aula ministrada ou o esforço em atender as necessidades de seus alunos?

É interessante notar que em geral tanto a família quanto a escola agendam conversas e reuniões entre si somente para apontar dificuldades e problemas, mas raramente para reconhecer ou elogiar pontos positivos ou avanços. No entanto, existe uma abordagem chamada Psicologia Positiva que propõe uma nova forma de encarar as coisas.

Essa área da Psicologia estuda os aspectos positivos e saudáveis dos indivíduos, grupos e organizações, preocupando-se em fortalecer as competências ao invés de focar e corrigir as deficiências. Isso não quer dizer que trabalhar com os problemas não é importante, mas essa linha enfoca naquilo que merece ser reconhecido e reforçado.

Essa abordagem, introduzida principalmente pelo psicólogo Martin Seligman, pode facilmente ser aplicada no contexto escolar. E se o tempo dedicado a queixas aos alunos com baixo rendimento escolar em conselhos de classe fosse dedicada para entender o aluno com adequado rendimento e comportamento? E se compartilhássemos mais as histórias de sucesso dos professores no manejo com os alunos ao invés das discussões? E se reforçássemos também a atitude daquele adolescente que se ajudou o colega ao invés de somente repreender quando é indisciplinado? Sem dúvida essas pequenas mudanças contribuiriam para criar um clima escolar mais favorável, contribuindo para o aprendizado dos alunos e para o desempenho profissional dos educadores.

Que tal você já aplicar essa ideia a partir de agora? Faça um elogio a um colega, comente sobre alguma mudança positiva feita pela gestão ou convide familiares de alunos com bom rendimento para reconhecer o esforço da criança. Você vai fazer a diferença no dia de alguém e no seu próprio dia também. 🙂

 

Se quiser saber mais, essa abordagem é estudada nos cursos de Especialização de Gestão em Psicologia Escolar e Formação em Psicologia Escolar EAD do Cape.

 

Inclusão na Educação Infantil

17 jun

Muitas vezes o processo de inclusão no ambiente escolar nos coloca à frente de situações inusitadas. Dentre eles, podemos citar o caso de uma professora de uma turma de Educação Infantil, com crianças de 4 a 5 anos, que relatou que um aluno se recusou a segurar a mão de outra colega porque “ela é esquisita”, referindo-se a uma colega com Síndrome de Down. A professora ficou chocada com a atitude e pediu à coordenação uma sugestão do que fazer com este menino, e também gostaria de realizar uma atividade com sua turma para a melhor aceitação desta colega com síndrome de Down.

Nesse sentido, pensando em como lidar com a situação, a psicóloga Adriane de Cássia Alves Gonçalves coloca que o despertar para as diferenças e semelhanças entre as pessoas ocorre na fase da educação infantil. Naturalmente chama a atenção das crianças qualquer outra que apresenta características que se destaquem de forma explícita, como acontece em crianças com síndrome de Down, que fisicamente apresentam diferenças notáveis. Nesse sentido, frente à preocupação e reação da professora eu a acolheria para ouvi-la e junto refletir sobre a atitude da criança de que não há nada que não possa ser trabalhado, como em outras situações: crianças negras, meninos de cabelo comprido, meninas de cabelo curto, etc.. Trabalhar as diferenças precisa fazer parte do cotidiano escolar.

A professora precisa entender a natureza da “rejeição ao diferente” para que a atitude do menino não seja “potencializada” e vista como algo tão “surpreendente”, mas que faz parte do trabalho educativo em relação “ao outro diferente de mim”. Por mais que a atitude surpreenda a professora, chama a atenção sua reação de “choque”, o que pode demonstrar ainda o despreparo da mesma para reconhecer a naturalidade do estranhamento do menino para intervir com tranquilidade na situação.

Conversar com o menino sem julgamento moral, sem criticar sua atitude como “feia” sem obriga-lo a dar a mão para a colega, será a forma de entender que ele como criança está conhecendo o mundo com diferenças e precisa entender que não há problema em ser diferente e que, por isso, a colega não é “esquisita”, mas tem o seu jeito. O trabalho com crianças é sempre com dois caminhos concomitantes: o da intervenção imediata quando algo ocorre e o planejamento pedagógico diário que contempla temas como este. Dessa forma, projetos devem fazer parte do trabalho sobre as diferenças e semelhanças: somos todos pessoas, crianças, mas cada um tem o seu jeito. Isso pode ocorrer através de histórias, brincadeiras, desenhos, conversas na rodinha, trabalhar o corpo, as diferenças físicas, os gostos e interesses diferentes e muitas outras maneiras podem ser pensadas para que as crianças curtam os trabalhos ao mesmo tempo em que estão familiarizando-se com o tema em questão. Esse trabalho precisa acontecer independente da turma ter alguma criança com necessidades especiais. No entanto, quando houver, o foco no tema precisa ser intensificado, onde as famílias e corpo docente precisam acolher lidando com “medos” e preconceitos. A inclusão traz benefícios para todos os envolvidos na medida em que se aprende o senso de humanidade e aceitação do outro diferente de mim e proporciona a criança o convívio com seus pares, auxiliando positivamente no desenvolvimento integral.

Desde que a educação inclusiva tem sido um repensar permanente se percebe que ainda mobiliza famílias e professores, mas com aceitação maior do que era anteriormente. Assim, precisa ser falado sobre isso, equipe pedagógica trabalhar com o corpo docente esta realidade, pois precisam estar preparados para lidar e intervir em situações como essa do menino sem que isso seja algo que “desestabilize” tanto o professor.

Texto elaborado pela psicóloga Adriane de Cássia Alves Gonçalves, aluna do curso de Formação em Psicologia Escolar.

inclusao

%d blogueiros gostam disto: