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Inclusão na Educação Infantil

17 jun

Muitas vezes o processo de inclusão no ambiente escolar nos coloca à frente de situações inusitadas. Dentre eles, podemos citar o caso de uma professora de uma turma de Educação Infantil, com crianças de 4 a 5 anos, que relatou que um aluno se recusou a segurar a mão de outra colega porque “ela é esquisita”, referindo-se a uma colega com Síndrome de Down. A professora ficou chocada com a atitude e pediu à coordenação uma sugestão do que fazer com este menino, e também gostaria de realizar uma atividade com sua turma para a melhor aceitação desta colega com síndrome de Down.

Nesse sentido, pensando em como lidar com a situação, a psicóloga Adriane de Cássia Alves Gonçalves coloca que o despertar para as diferenças e semelhanças entre as pessoas ocorre na fase da educação infantil. Naturalmente chama a atenção das crianças qualquer outra que apresenta características que se destaquem de forma explícita, como acontece em crianças com síndrome de Down, que fisicamente apresentam diferenças notáveis. Nesse sentido, frente à preocupação e reação da professora eu a acolheria para ouvi-la e junto refletir sobre a atitude da criança de que não há nada que não possa ser trabalhado, como em outras situações: crianças negras, meninos de cabelo comprido, meninas de cabelo curto, etc.. Trabalhar as diferenças precisa fazer parte do cotidiano escolar.

A professora precisa entender a natureza da “rejeição ao diferente” para que a atitude do menino não seja “potencializada” e vista como algo tão “surpreendente”, mas que faz parte do trabalho educativo em relação “ao outro diferente de mim”. Por mais que a atitude surpreenda a professora, chama a atenção sua reação de “choque”, o que pode demonstrar ainda o despreparo da mesma para reconhecer a naturalidade do estranhamento do menino para intervir com tranquilidade na situação.

Conversar com o menino sem julgamento moral, sem criticar sua atitude como “feia” sem obriga-lo a dar a mão para a colega, será a forma de entender que ele como criança está conhecendo o mundo com diferenças e precisa entender que não há problema em ser diferente e que, por isso, a colega não é “esquisita”, mas tem o seu jeito. O trabalho com crianças é sempre com dois caminhos concomitantes: o da intervenção imediata quando algo ocorre e o planejamento pedagógico diário que contempla temas como este. Dessa forma, projetos devem fazer parte do trabalho sobre as diferenças e semelhanças: somos todos pessoas, crianças, mas cada um tem o seu jeito. Isso pode ocorrer através de histórias, brincadeiras, desenhos, conversas na rodinha, trabalhar o corpo, as diferenças físicas, os gostos e interesses diferentes e muitas outras maneiras podem ser pensadas para que as crianças curtam os trabalhos ao mesmo tempo em que estão familiarizando-se com o tema em questão. Esse trabalho precisa acontecer independente da turma ter alguma criança com necessidades especiais. No entanto, quando houver, o foco no tema precisa ser intensificado, onde as famílias e corpo docente precisam acolher lidando com “medos” e preconceitos. A inclusão traz benefícios para todos os envolvidos na medida em que se aprende o senso de humanidade e aceitação do outro diferente de mim e proporciona a criança o convívio com seus pares, auxiliando positivamente no desenvolvimento integral.

Desde que a educação inclusiva tem sido um repensar permanente se percebe que ainda mobiliza famílias e professores, mas com aceitação maior do que era anteriormente. Assim, precisa ser falado sobre isso, equipe pedagógica trabalhar com o corpo docente esta realidade, pois precisam estar preparados para lidar e intervir em situações como essa do menino sem que isso seja algo que “desestabilize” tanto o professor.

Texto elaborado pela psicóloga Adriane de Cássia Alves Gonçalves, aluna do curso de Formação em Psicologia Escolar.

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Limites na Infância: um posicionamento necessário

15 ago

Texto elaborado pela aluna do curso de Formação em Psicologia Escolar, psicóloga Juliana Baía do Vale Santiago, de Belém – PA.

A frase de Hannah Arendt “As crianças deixadas à sua própria sorte, ficarão sujeitas à tirania do próprio grupo” diz respeito à temática da socialização, mais especificamente sobre limites. O desenvolvimento infantil saudável depende fundamentalmente de: 1) cuidados básicos de higiene, alimentação e proteção e; 2) ensino de comportamentos sociais adequados à vida em sociedade. No que se circunscreve ao ensino de comportamentos sociais, é mister ratificar que os limites são necessários ao processo de “humanização” da criança, facilitando a sua inserção nos mais variados ambientes sociais.

Sendo assim, a família é o primeiro círculo de coexistência grupal. É na relação com os pais e outros cuidadores significativos que a criança aprende as regras sociais, por meio de instruções diretas, vivências de tentativa e erro e observação de modelos. A criança começa a identificar as formas de ser no mundo, como se comportar, o que fazer para experienciar trocas afetivas e outras maneiras de reforço social. Contudo, a criança ainda não sabe até onde deve ir, qual o máximo de coisas que pode fazer, qual a intensidade de seu agir. Daí a importância da imposição de limites pelos cuidadores, sobretudo os pais.

Assim sendo, a criança ainda não tem maturidade e prática suficientes para discriminar como portar-se diante do mundo. São os pais que facilitarão esse aprendizado, como mediadores entre a criança e o mundo. A necessidade de limites inicia-se fisicamente, com a aprendizagem da noção de consciência corporal pelo bebê. Á medida que a simbiose mãe-filho vai sendo quebrada o neném passa a perceber onde termina o seu corpo e onde principia o corpo do outro, acomodando então o embrião de conceitos muito mais refinados, como empatia e autoconhecimento.

Logo, conforma o bebê vai crescendo, os pais passam a fornecer limites de comportamento, orientando a criança no que ela pode e o que ela não pode fazer. Nesse processo há a necessidade de cercear as ações com muita frequência, todavia esse é um movimento educativo fundamental, caso contrário, corre-se o risco de transferir aos filhos as responsabilidades que são dos cuidadores. Em uma família em que as crianças mandam, há claramente uma desorganização psicológica por partes dos adultos, os quais podem estar tendo dificuldades em internalizar o papel de responsáveis por outra vida, além das suas próprias.

Portanto, uma criança que não tem limites está à mercê do mundo. Diferentemente do que muitos pais pensam, os limites servem para proteger a criança de si mesma, de sua falta de habilidades para lidar com situações que só a experiência fornecida pelo tempo pode proporcionar. Constantemente a conduta dos pais de não fixar limites aos filhos deriva de um sentimento de culpa por não poder estar mais perto da criança, ou também pelo cansaço e esgotamentos físicos e emocionais que as mães precisam lidar com as exigências e pressões do cotidiano.

Portanto, a criança que cresce sem limites, quando passa a conviver em outros ambientes, tais como a escola, manifesta dificuldades em compreender os direitos dos outros, em controlar seus próprios sentimentos e em aguardar os momentos adequados para dar vazão aos seus anseios. A criança sem limites não é livre, muito pelo contrário: ela é controlada pelos seus desejos. Ela passa a agir de modo que suas vontades sejam atendidas por todos, o que pode provocar repulsa em outras pessoas, inclusive de outras crianças.

Assim, a criança sem limites perde muitas trocas significativas, passando frequentemente a lidar com a exclusão social. O filho educado dessa forma vive sem referências de certo e errado. Ele precisa do contato com o outro, mas exige essa aproximação de maneira inadequada, deturpando as relações e gerando muito sofrimento para si e para a sociedade. A criança desenvolve-se com valores questionáveis que podem gerar atitudes violentas e disruptivas. Por isso, estabelecer limites é um posicionamento responsável, digno do amor que toda criança necessita e merece.

 

Família e escola: uma aproximação necessária

12 maio

por Vivien Böck, psicóloga, diretora do Centro de Aperfeiçoamento em Psicologia Escolar

O senador Cristovam Buarque apresentou um projeto de lei que, resumidamente, obriga os pais dos alunos de todas as escolas brasileiras, públicas ou particulares, a comparecerem à escola de seus filhos, ao menos uma vez a cada dois meses a fim de acompanharem mais efetivamente a vida escolar deles.

Trata-se de uma proposta polêmica que vem suscitando críticas que alegam que esta participação familiar deveria ser decidida voluntariamente, pela conscientização da importância de seu envolvimento para o sucesso escolar do aluno. Sem dúvida, melhor seria se os responsáveis pela criança ou jovem participassem ativamente sem necessidade da pressão legal. No entanto, não é o que acontece. Ao contrário, cada vez mais os professores queixam- se que estão assumindo as funções paternas da educação, que as famílias estão delegando à escola a educação informal como a instalação de limites no comportamento como respeito pelos colegas e pela autoridade docente.

Além disso, diversos estudos comprovam que o desempenho escolar é positivamente influenciado pela valorização da aprendizagem por parte da família. Assim esta lei pretende que ao aumentar o entrosamento entre pais e escola, o processo educativo também melhore e tenhamos uma educação mais efetiva.

Por outro lado, ao adentrarem os muros das escolas, os pais perceberão e se envolverão com muito mais questões deste universo do que unicamente com o acompanhamento escolar dos filhos mas também com os aspectos institucionais, com a qualidade do ensino, as dificuldades que a escola enfrenta, os métodos e a formação dos professores. Ao se comprometerem com a aprendizagem também exercerão seu papel de cidadãos críticos e fiscalizadores daquilo que é oferecido como Educação. A exigência sobre a qualidade do ensino será maior, assim como a valorização da profissão docente e da necessidade urgente da sociedade e dos governos restabelecerem a Educação como prioridade nacional.

Já por parte da escola, esta terá também que mostrar um desempenho melhor, a começar por organizar reuniões mais produtivas e interessantes aos pais, não apenas uma repetição de encontros enfadonhos e desmotivadores da presença familiar. Se os pais forem exigidos a acompanharem a vida escolar dos filhos, a escola também será mais exigida por parte da família.

Estas duas instituições, família e escola, são constituintes da infância e da adolescência e juntas podem criar estratégias de ação e reflexão sobre a realidade da Educação. E sem dúvida, os mais beneficiados não serão apenas os estudantes, mas todos nós, a sociedade brasileira.

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A Carreira em um Contexto de Incertezas

12 set

 por Patrícia Bandeira, professora do curso Teorias e Tendências em Desenvolvimento de Carreira e coordenadora do CAPE

O mundo mudou. Estamos vivendo um momento cada vez mais complexo e intenso, com múltiplas possibilidades e iniciativas surgindo a cada momento. Sendo assim, a carreira profissional na sociedade atual também se transformou, na medida que cada vez mais são os próprios indivíduos os responsáveis pela condução de suas carreiras, e não mais as corporações, como em décadas passadas.

O modelo tradicional de carreira, que vigorou até os anos de 1970, foi marcado pela estabilidade, enriquecimento e progresso profissional linear. As pessoas competiam por oportunidades limitadas de promoção e a subida de cargo era o indicador máximo de sucesso profissional. Em uma época em que as relações de trabalho previam continuidade, relações de longo prazo e lealdade mútua entre indivíduos e organizações, as trajetórias profissionais estavam alicerçadas quase que estritamente nas ocupações e cargos dentro das organizações.

Com as transformações das relações de trabalho a partir dos anos 70, tornando-se mais flexíveis e instáveis, o conceito de carreira precisou incorporar novos elementos, passando a explorar questões além das fronteiras estritamente organizacionais. Hoje, a ideia de carreira significa entende-la como uma série de experiências e de aprendizados pessoais, relacionados ao trabalho, ao longo da vida.  Nesse novo contexto, indivíduos são incentivados a alcançar empregabilidade e progresso profissional, de forma autônoma e independentemente de uma associação duradoura com a empresa. A trajetória profissional, portanto, deixa de ocorrer apenas no interior das organizações e passa a ocupar espaços mais amplos. Há inúmeras possibilidades de emprego, oportunidades inexploradas, centenas de cursos universitários e milhares de profissões, surgindo novas a cada dia.

Como pensar em carreira nesse contexto? Como atrair colaboradores ante um cenário tão diversificado e com tantas possibilidades? Como escolher uma profissão em um mercado em constante mudança? E como planejar a longo prazo, se grande parte das profissões futuras sequer existe hoje em dia? A incerteza ante tais questionamentos muitas vezes causa ansiedade nos indivíduos, e um questionamento permanente sobre qual o melhor caminho a seguir. Nesse ponto, destaca-se a importância do trabalho dos profissionais que atuam com aconselhamento de carreira, coaching e orientação profissional. Frente um cenário tão diversificado e incerto, sua atuação pode ser decisiva para que as pessoas possam fazer decisões profissionais que as realizem, tornando-as profissionais mais satisfeitos e que consequentemente geram um impacto positivo em nossa sociedade.

Multiple question marks on paper

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“As crianças deixadas à sua própria sorte, ficarão sujeitas à tirania do próprio grupo”

23 ago

Nossa aluna, Claudia Maria de Lavor, psicóloga do curso de Formação em Psicologia Escolar EAD, descreve abaixo seu entendimento sobre a frase de Hannah Arend: “As crianças deixadas à sua própria sorte, ficarão sujeitas à tirania do próprio grupo.” Confira:

A esse respeito, a autora alerta sobre o risco das novas práticas pedagogias e “psi” introduzidas no contexto educacional a partir da modernidade. O advento da modernidade trouxe consigo os ideais de liberdade que de certa forma atingiram o modo de vida da sociedade e consequentemente as concepções educacionais existentes naquela época. Estes ideais eram marcados por um imenso repúdio as práticas disciplinares educacionais consideradas demasiadamente violentas. Na qual, crianças e jovens sofriam violências físicas e psíquicas nas escolas, era comum a aplicação de castigos e punições.  Hannah ressalta que a crise educacional era resultado da associação entre a pedagogia e a psicologia responsáveis pela formação de uma educação progressista.  A Sociedade Moderna se viu diante de uma revolução radical de todo o sistema educacional e para a autora parte daí o fracasso existente nos dias atuais.

Segundo Hannah, a criança precisa ser preparada para o mundo e a escola e a educação são peças fundamentais desse processo. Cabe a escola juntamente com a família a função de mediar essa introdução da criança no mundo público. Suas análises acerca desse tema teciam críticas aos métodos pedagógicos e psicológicos centrados unicamente na criança, no qual, a figura de autoridade passa a ser entendida de modo distorcido. Fazendo com que a criança se torne a figura central seja no ambiente familiar ou escolar. Ao repudiar práticas disciplinares baseadas em ações e discursos ditadores surge uma nova lógica de pensamento que se mostra contrária a todo e qualquer tipo de autoritarismo.

A sociedade atual encontra-se perdida diante desse dilema principalmente quando se refere à criação e a educação das crianças. O processo de negação ao modelo anterior foi tão fortemente estabelecido fazendo com que noção entre autoridade e autoritarismo seja tão comumente confundida por pais e professores. “Deixar a criança a própria sorte” significa deixar a criança sem esse referencial de autoridade, sem saber o que é certo ou errado, o que  ela pode ou não fazer. Ao falhar ou negligenciar na educação e nas ações inadequadas dos filhos os pais consequentemente estão contribuindo para a formação de jovens perdidos, abandonados ou até mesmo delinqüentes. A cada dia se torna mais evidente a figura do “reizinho da casa” e pais submetidos ao capricho e a vontade dos mesmos.

A autoridade é algo que um indivíduo necessita possuir, ou seja, está ligada a liderança, comando e postura. Ter autoridade com filho significa ter domínio, ter conhecimento, saber como agir ensinando-o o respeito às regras e limites. Ao contrário de ser autoritário, ou seja, aquele que impõe algo por imposição, geralmente fazendo uso da força física ou da violência verbal.  Portanto, para que essa figura referencial se constituía é necessário que pais e educadores aprendam ao longo do tempo construir relações com outro, baseadas na autoridade. Como forma de adquirir conhecimento e transformá-lo em sabedoria, desse modo, o processo de desenvolvimento de criança se tornará mais saudável.

Pais precisam compreender a importância do seu papel na formação do caráter e da personalidade de seus filhos. Trazer para si as responsabilidades, evitando que o processo educacional do filho seja terceirizado pela escola, babá ou por pelos próprios amigos. A escola precisa se readaptar e se reconstruir, estabelecer novas formas de ação que produzam discursos que não só atendam as demandas dos familiares, mas que também fortaleçam a figura do professor. O professor necessita ser mais apoiado em suas ações para que ele consiga executar sua função de educador na formação de valores éticos.

 

Parents Walking Son to School

A Responsabilidade de Educar: papel da família ou da escola?

26 jul

Nossa aluna do curso de Formação em Psicologia Escolar EAD, Flávia Vasata Furtado, de Caxias do Sul, descreve abaixo seu posicionamento sobre o argumento frequente de que a escola tem a função de ensinar e que educar é obrigação da família. Confira:

Nas Escolas, infelizmente, ainda é muito comum ouvir o discurso dos professores, principalmente frente à indisciplina e/ou dificuldade dos alunos, estarem vinculados à falha da família no papel de educar seus filhos.

Penso que através deste discurso, os professores se eximem do seu papel, enquanto educadores, culpabilizando a família pelas dificuldades encontradas com este aluno, que muitas vezes estão relacionadas à própria dificuldade do educador em enxergar aquele aluno, em sua singularidade, com falhas, mas também com muitas potencialidades, independente de sua família.

Lidar com as diferenças apresentadas por estes alunos, acaba exigindo que estes professores estejam abertos a se vincularem com os mesmos, a compreenderem a sua realidade, podendo assim contribuir também para sua aprendizagem. A Escola deve refletir sobre sua verdadeira função, que não se restringe apenas ao ensino do conhecimento formal, mas também a educação sobre valores, sobre ser um cidadão de opinião, com deveres e direitos.

A Escola passa a ser para estas crianças e adolescentes o segundo agente socializador, onde novas relações são construídas, assim como novos princípios de convivência são estabelecidos, desta forma a Escola tem um papel importante na vida destes alunos, que vai além das disciplinas ensinadas. Aquele aluno, com dificuldades, indisciplinado, também é de nossa responsabilidade, assim quando há falhas destes, também é nosso papel refletirmos o que poderia ser feito de diferente para que estas falhas fossem trabalhadas.

Ao responsabilizarmos, apenas a família, pela educação de seus filhos, podemos questionar: o que seria daqueles que não possuem uma família afetiva, que os acompanhe e os “eduque”? Desistimos destes alunos, uma vez que a família não se responsabiliza por sua educação? Penso que estas são algumas das reflexões que devem ser feitas aos professores. Eles precisam ter a consciência de que a Escola tem um papel importante na vida destas crianças e adolescentes, que vai além do ensino. A Escola, educa, educa para o mundo, ao possibilitar a este aluno, novas formas de relações interpessoais, seja entre os colegas, ou com figuras de autoridade, assim como, contribui para que eles convivam com valores e princípios, que podem estar distantes de sua realidade, mas que permitam uma nova visão de mundo. Deste modo, podemos ter cidadãos mais responsáveis e éticos, e consequentemente, uma sociedade mais humana e justa.

Teacher Reading With Male Pupil In Class

A felicidade de aprender

1 jul

A aluna do curso EAD de Formação em Psicologia Escolar, psicóloga Márcia Antunes Correia Leite Alves, de Brasília, nos traz uma reflexão sobre motivação escolar a partir da frase do educador e psicanalista Rubem Alves, 2001: “O que penso dos jovens e da educação não me permite aceitar que a escola seja uma experiência de dor”.

Segundo Rubem Alves, educar não é ensinar os conteúdos que são aprendidos nos livros e computadores, é ter na presença constante do professor uma oportunidade de “ver” o mundo. 

Entretanto, lembramos muito pouco de nossos professores, mas não esquecemos dos amigos, de alguns momentos do recreio e de algumas brincadeiras. Com isso percebemos que as experiências de alegria na escola estão relacionadas às amizades, deixando de lado à alegria de aprender, de compreender e de estudar.

A educação precisa proporcionar às crianças e jovens, a experiência de ver o mundo com seus próprios olhos, descobrir, experimentar, tirar as próprias conclusões das situações apresentadas, pois apenas dessa maneira farão sentido para o aprendizado. Os sentimentos e emoções precisam fazer parte do dia a dia na escola, relacionando-se com uma aprendizagem significativa. Focar mais nos acertos do que nos erros, focar mais na alegria do que na tristeza. Valorizar mais o aluno e a contribuição que ele pode dar para a descoberta do conhecimento. Continue lendo

Bullying ou Liberdade de Expressão?

27 jan

O assassinato cruel e covarde dos jornalistas chargistas do jornal francês Charlie Hebdo, por dois muçulmanos, deixou o mundo ocidental estarrecido e indignado pela morte das pessoas, mas principalmente por representar um ataque à liberdade de expressão da imprensa e de todos os cidadãos.

O motivo para o massacre foi a publicação de uma caricatura de Maomé, na capa de uma edição do jornal. Para o islamismo, criar uma imagem do seu profeta é uma blasfêmia e mais ainda por se tratar de uma charge, um deboche a um preceito religioso. Não foi a primeira vez que este jornal produzia uma charge de Maomé.

E para lavar a honra se sua religião, os irmãos muçulmanos assassinaram os jornalistas e humoristas, mas também atingiram um dos preceitos mais valiosos da democracia, o direito à liberdade de expressão.

Diante destes fatos e da repercussão extraordinária que se sucedeu, fiquei pensando na escola…

E fiquei pensando em todos os projetos antibullying desenvolvidos junto aos alunos, professores e pais, fiquei lembrando das entrevistas que psicólogos e orientadores educacionais fazem com os alunos envolvidos em bullying, tanto com os que são vítimas como com os agressores.

Lembrando que bullying consiste em ofender, humilhar, espalhar boatos, isolar, bater, perseguir, assediar, roubar, que ocorre repetidas vezes por parte de um aluno(s) em relação a outro(s) que está em desvantagem de poder defender-se.

Como fica a escola, quando ocorrer um caso de bullying, de um aluno debochar insistentemente de um aspecto físico de outro colega? Quando houverem desenhos caricatos, piadinhas ou outras gozações recorrentes?

Esta situação deixa de ser bullying e passa a ser considerado como exercício da liberdade de expressão?

Os pais dos alunos agressores, que muitas vezes alegam exagero da escola quanto às “brincadeiras” de humilhação de seus filhos para com colegas agora também podem argumentar que seu filho não pode ter sua liberdade de expressão cerceada?

Como é que ficam os alunos ofendidos?

No filme, “Autores da Liberdade”, a professora protagonista da história retém em sala de aula uma caricatura feita por um aluno que debochava do nariz largo de um colega negro. Ao questionar à turma sobre essa gozação, a professora trouxe que assim também os nazistas começaram sua perseguição aos judeus. A partir desta conversa, esta turma passa a se questionar se as diferenças entre eles são motivo para segregação e violência. Este é um dos filmes mais utilizados nas escolas na luta contra o bullying ou nos enganamos e estávamos contra a liberdade de expressão?

por Vivien Rose Bock – Psicóloga Clínica e Escolar, mestre em Psicologia Social e da Personalidade, Formação em Psicoterapia de Família e Casal, professora da PUCRS, autora do livro “Professor e Psicologia Aplicada na Escola” e “Motivação para Aprender, Motivação para Ensinar”, coordenadora do CAPE

A Escola pode ou não “convidar” um aluno a se retirar

16 set

por Vivien Rose Bock, coordenadora do CAPE

O Conselho Estadual de Educação (RS) analisa parecer que impediria o afastamento da escola de alunos, como punição, por indisciplina na rede pública e privada de ensino básico. A norma prevê que não cabe à escola definir a transferência compulsória de qualquer estudante, obrigando-o a deixar de estudar em determinada instituição e passar a estudar em outra. Tal resolução seria aplicada em todos os casos, independentemente de o estudante ter histórico violento ou como infrator, dentro ou fora da escola. Caso o parecer seja aprovado, a instituição fica responsável por lidar com casos de indisciplina de outras maneiras.

Ora, para uma escola chegar ao ponto de considerar que o afastamento é o único modo de conter os impulsos e comportamentos inadequados de um aluno é porque já foram tentadas  inúmeras estratégias de resolver esta situação durante anos e a instituição sente-se impotente para solucioná-la. Quem trabalha com Educação sabe do esforço e tempo que as escolas dedicam quanto à questão da falta de limites e violência dentro das escolas.

As “outras maneiras” que o CEE se reporta já foram esgotadas como conversas com o aluno infrator, com vários professores, com o Serviço de Orientação Escolar, entrevistas com os pais, que nem sempre comparecem ou que tem as suas dificuldades para entender e lidar com os filhos. Encaminhamentos a profissionais especializados como psicólogos, psicopedagogos e outros para que com sua técnica e ciência possam ajudar nos manejos mais adequados. Estes alunos e suas famílias não conseguem seguir ou colaborar com as orientações escolares e as incivilidades se agravam prejudicando não apenas a estes estudantes mas a todo ambiente escolar, passando a percepção tão em voga de “não dá nada”. Ou seja, resta a decisão de “convidá-lo a se retirar” da escola para que esta tenha novamente o respeito da comunidade escolar que se questiona e se indigna com a permanência deste educando e de seus comportamentos agressivos.

Mas este aluno talvez tenha uma melhor oportunidade em outra instituição, ou por se adequar melhor a esta outra realidade; ou para que sua família se conscientize, a duras penas, que necessita olhar-se e tomar providências para atender a seu filho; ou por sentir efetivamente que seu comportamento é prejudicial para todos e que ele perde com isso.

Entre tantos estudos que comprovam que atitudes de condescendência e permissividade resultam em baixa tolerância à frustração, a revista Època negócios (setembro, 2014) traz um pequeno artigo sobre uma pesquisa de motivação. Segundo Kelly Goldsmith, professora da Kellog School Management, e seu colega Ravi Dhar, de Yale, a ameaça de perder algo que se considera positivo, resulta em maior empenho, maior motivação no trabalho, do que a promessa de receber um bônus ou algo desejado.

Ao ler o texto, lembrei-me da norma pretendida pelo CEE e também de alguns casos que atendi. Os alunos ameaçados de terem de sair de sua escola ou mesmo, de trocarem de turma ou turno, por motivos de indisciplina e agressões, refletiam e se dispunham seriamente a alterarem seu comportamento. Bem ou mal, a ameaça de perderem seus vínculos com os colegas, com a instituição que lhes reprime mas também que os acolhe, foi o fator decisivo para reverterem atitudes e aceitarem as orientações da escola como buscarem acompanhamento terapêutico. Mas, se não importa para um aluno perder seus relacionamentos, então não tem sentido permanecer nesta instituição e talvez a agrida para conseguir se desvencilhar dela.

Nenhuma escola quer chegar ao ponto de excluir um aluno, e muitas vezes, relutam demasiadamente para tomarem esta decisão. Também nenhum aluno e família querem que esta situação ocorra. Mas é necessário que eles entendam que podem ter prejuízo no que mais prezam na escola, seus amigos, companheiros de brincadeiras, de conversas, de crescimento. Saber que por mais que mantenham um vínculo fora da escola com os colegas, não viverão o dia-a-dia escolar, as experiências conjuntamente. Ficarão sabendo das histórias mas não as vivenciarão, serão plateia e não atores.

Assim, penso que a ameaça real de ser retirado da escola, que se efetiva e não é mera balela da direção, torna-se uma forte aliada na busca de uma reflexão profunda e mudança de comportamento que só beneficiará a comunidade escolar mas principalmente, a este aluno.

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