Dica de Filme: Vermelho como o Céu

28 abr

Filme indicado para o trabalho de sensibilização para a inclusão escolar de deficientes visuais é uma ótima dica para assistir durante o feriado. Confira abaixo a análise desta história real, filmada com extrema sensibilidade e poesia, feita pela psicóloga e especialista em Psicologia Escolar (CAPE) Marina Consul:

O filme se passa da década de 70 e retrata a história de Mirco Balleri, um menino de dez anos que após sofrer um acidente ao brincar com a arma do pai perde quase completamente a visão. Por indicação do médico que o atendeu – que reforça que há uma Lei na qual deficientes não podem frequentar escolas regulares, mas sim ir para uma escola especial – os pais decidem com insegurança e pesar levar o menino para um internato religioso que atende crianças cegas.

Nesse internato o diretor é extremamente rígido e amargurado, provavelmente por ter perdido a visão também. A escola utiliza um regimento de rotina e controle sobre os alunos, restringindo as atividades como brincar apenas no pátio da escola, fazer as refeições e dormir, além da limitante atividade de tecelagem para as crianças. Mirco tem dificuldades em se adaptar à escola e se recusa a aprender o Braile, mas mesmo assim seu professor Don Giulio não desiste de estimulá-lo.

Certo dia Mirco encontra um gravador e começa a explorar sons e gravá-los para usar na apresentação do trabalho que o professor pediu sobre as estações do ano. A partir daí, o aluno entra num universo novo, de fantasias, de construção de aprendizagem de uma forma criativa. Quando o diretor descobre repreende o menino, proibindo que seguisse com a intromissão no material da escola destinado ao uso dos professores. Seu professor Don Giulio, no entanto oferece um gravador com a condição de que Mirco aceite a aprender o braile.

Mirco faz amizade com a menina Francesca – filha de uma funcionária da escola, e juntos embarcam no projeto de criar uma história com sons gravados que imitam dragões, princesas, madrasta, passos, enfim diversas situações que uma pessoa cega pode ouvir para imaginar. Os outros colegas descobrem e se interessam, e Mirco acaba arranjando papéis para a participação de todos. Quando o diretor descobre a atuação dos alunos com o gravador, ele decide expulsar o aluno Mirco, o que causa revolta no professor Don Giulio, nos alunos e em Francesca que busca a ajuda de Ettore, um ex-aluno cego que trabalha na fundição da cidade e que Mirco e Francesca conheceram num dia que fugiram do colégio para passear de bicicleta. O professor Don Giulio se manifesta contra a expulsão e Ettore convida cidadãos e equipes de outras escolas que se posicionam contra a expulsão do aluno na porta do instituto.

Por fim, o professor Don Giulio passa a se responsabilizar e decide junto com os alunos apresentar para os pais dos internos a produção que eles mesmos construíram para a peça de final de ano, ainda com a ideia de que todos deveriam usar vendas para ouvir e sentir como os seus filhos.

Esse filme remete a um tema atual que é o da inclusão nas escolas normais, ou seja, de poder integrar, valorizar e incentivar o aluno com deficiências a desenvolverm suas habilidades de aprendizagem junto com outras crianças sem deficiências. A deficiência passa a ser vista como uma particularidade, como todas as pessoas tem as suas. Acredito que a troca de experiências e a convivência com outras crianças promove a diminuição do preconceito e da exclusão e permite trocas muito ricas na convivência escolar. Para Tessaro (2005), só se pode falar de integração quando há uma efetiva interação entre deficientes e não deficientes. Os programas de ensino especial devem estar compatibilizados com os do ensino regular, portanto, faz-se necessário o convívio social entre alunos, professores e demais profissionais da escola, assim como a família é importante nesse processo. A autora ainda ressalta que a integração é um processo complexo que envolve a adaptação de todas as partes: população geral, profissionais, familiares e a própria pessoa a ser integrada. Vale ressaltar que o princípio básico da educação inclusiva implica na possibilidade de que todas as crianças aprendam juntas, independente de suas dificuldades ou diferenças. (Tessaro, 2005)

O’Regan (2007), refere-se as limitações visuais como uma variedade de dificuldades, desde pequenas limitações até a cegueira total. O autor enfatiza que para fins educacionais, tais crianças são consideradas portadoras de limitações visuais se necessitarem de adaptações em seu ambiente e/ou apoio físico por meio de equipamentos para acompanhar o currículo. Aqueles cuja visão é corrigida por óculos não devem ser incluídos neste grupo. Uma criança cega costuma ser definida como aquela que necessita de métodos não-visuais para aprender – como o Braile – bem como a audição. Segundo Gotti (1998) citado por Tessaro (2005), a inclusão escolar significa um novo marco conceitual e ideológico, o qual precisa envolver políticas, serviços sociais e comunidade. Implica considerar, aceitar e reconhecer a diversidade na vida e na sociedade, isto é, identificar que cada indivíduo é único, com suas necessidades, desejos e peculiaridades próprias.

As escolas necessitam de muitos recursos ainda para alcançar a proposta da inclusão nas escolas, e para isso deve-se contar com a habilitação dos profissionais da escola e o amparo do Estado. De acordo com a Revista Nova Escola, “a organização dos objetos da sala de aula deve ser compartilhada com o aluno, a fim de facilitar o acesso e a mobilidade. Manter carteiras, estantes e mochilas sempre na mesma ordem, comunicar alterações previamente e sinalizar os objetos para que sejam facilmente reconhecidos. O aluno cego tem direito a usar materiais adaptados, como livros didáticos transcritos para o braile ou a reglete (prancheta para a escrita em Braile) para escrever durante as aulas. Antecipar a adaptação dos textos junto dos educadores responsáveis pela sala de recursos, que deve contar com máquinas braile, impressora e equipamentos adaptados.

A alfabetização em braile das crianças com cegueira total ou graus severos de deficiência visual é simultânea ao processo de alfabetização das demais crianças na escola, mas com o suporte essencial do Atendimento Educacional Especializado (AEE). Vale lembrar que, de acordo com o Decreto 6.571, de 17 de setembro de 2008, o Estado tem o dever de oferecer apoio técnico e financeiro para que o atendimento especializado esteja presente em toda a rede pública de ensino. Mas cabem ao gestor da escola e às Secretarias de Educação a administração e o requerimento dos recursos para essa finalidade. Oferecer ambientes adaptados, com sinalização em braile, escadas com contrastes de cor nos degraus, corredores desobstruídos e piso tátil, é mais uma medida importante para a inclusão de deficientes visuais. O entorno da escola também deve ser acessível, com a instalação de sinais sonoros nos semáforos e nas áreas de saída de veículos próximas da escola”.

O personagem Mirco é um menino repleto de criatividade e com muita capacidade para aprender, mas o instituto em que estava não estimulava nem oferecia novas intervenções no ensino, não havia atualização nem a escuta da necessidade dos alunos. Mirco adora cinema, inclusive levou seus colegas escondido a uma sessão como uma forma de fazer algo inovador, tanto que todos se divertiram muito. Hoje em dia já existem filmes com audiodescrição – que descrevem as cenas entre os diálogos, o cenário é descrito para que os deficientes visuais possam apreciar filmes. No site audiodescrição.com.br é possível encontrar a seguinte definição: “A audiodescrição é o recurso que permite a inclusão de pessoas com deficiência visual em cinema, teatro e programas de televisão. No Brasil, segundo dados do IBGE, existem aproximadamente 16,5 milhões de pessoas com deficiência visual total e parcial, que se encontram  excluídos da experiência audiovisual e cênica. A acessibilidade nos meios de comunicação é um tema que está em pauta no mundo todo. Os esforços neste sentido visam não apenas proporcionar o acesso a produtos culturais a uma parcela da população que se encontra excluída, como também estabelecer um novo patamar de igualdade baseado na valorização da diversidade.”

O cartunista Maurício de Sousa criou uma personagem cega chamada Dorinha que se envolve em várias atividades comuns com os outros personagens, demonstrando as potencialidades que podem ser desenvolvidas. Criou também filmes da Turma da Mônica com audiodescrição para crianças cegas, que podem ser facilmente encontrados na rede de internet. Maurício de Sousa define a personagem: “Dorinha é uma das mais novas integrantes da Turma da Mônica. Garota cega, que reconhece seus  amigos pela voz, pelo cheiro, e está completamente enturmada. É inteligente, meiga e participa de várias aventuras da Turma da Mônica. Estreou na edição no 221 do gibi da Mônica, editora Globo. Antenada com tudo o que acontece à sua volta, inclusivena moda, Dorinha está sempre deslumbrante, com roupas fashion, corte de cabelo moderno, óculos escuros, segurando, numa mão, a sua bengalinha e na outra, a coleira do Radar, um labrador esperto e carinhoso que a ajuda a se guiar. A personagem, bastante extrovertida, brinca normalmente como qualquer criança. Ela surpreende os amiguinhos com suas habilidades e sentidos aguçados como o tato, a audição e o olfato”. (Maurício de Sousa).

Considero a inclusão um tema ainda pouco discutido em relação à forma que deve ser adotada. As escolas ainda não estão preparadas para assumir e integrar um aluno com necessidades especiais. Acredito que seja um longo caminho a ser trilhado e uma grande responsabilidade do psicólogo escolar atuar nessas circunstâncias, se informando e auxiliando a escola com essa nova realidade que tende a trazer benefícios para todos.

 

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Teoria Integrativa

3 jan

Frequentemente alunos me questionam: mas afinal, qual é a linha teórica em Psicologia que adotas, que segues?

Ora, eu sou psicóloga, e portanto eu sigo todas as teorias as quais penso que o caso comporta, ou que se beneficiará com sua aplicabilidade e com seu entendimento. Não sou escrava de uma teoria e nem escravizo meu cliente/paciente e seu contexto enquadrando-os e muitas vezes deformando-os para que se encaixem na linha teórica.

Não entendo porque não lançar mão, ou melhor lançar luz de entendimentos diferentes mas complementares sobre uma situação que sendo iluminada por várias fontes e por diversos ângulos, será melhor percebida e terá maior clareza para uma intervenção terapêutica ou preventiva. Por outro lado, apenas com uma luz, só uma parte surge e o resto será de sombras, as quais podem escurecer aspectos importantes que não permitirão um desenvolvimento pleno ou até poderão ser a base do iceberg.

Vamos a um exemplo corriqueiro: aluno com um histórico de dificuldade em uma determinada matéria, que por isso já não se dedica muito em aula, perturba seus colegas com conversas e reclama do professor quando este lhe chama a atenção.

Sob as minhas várias óticas teóricas e sem me aprofundar em mais detalhes do caso, posso entender que este aluno (sob uma visão cognitivo comportamental) mantém uma crença de incompetência de compreensão desta disciplina, pois sua história escolar assim o comprova. Complementarmente, entendo que quando o professor lhe chama a atenção, ele se sente ameaçado em sua autoestima e segundo a teoria da motivação de Murray (advinda de Maslow) gera necessidade de defesa de humilhação e preservação de autoestima e então reclama do docente. Mas também compreendo, psicanaliticamente, que neste confronto existe uma transferência inconsciente de sua relação com a autoridade parental e que o professor precisa entender que o comportamento reivindicatório do aluno não se dirige totalmente à sua pessoa, para poder manejar melhor a situação e poder auxiliar seu aluno em sua dificuldade. Para que o docente tenha este conhecimento psicanalítico e das demais teorias, recorro à teoria sistêmica que aborda a dificuldade em sua complexidade.

A psicoeducação do corpo docente quanto às teorias de desenvolvimento psicológico promove uma formação mais global da prática pedagógica, instrumentalizando os professores de conhecimentos e manejos mais adequados em sala de aula. Além disso, a teoria sistêmica possibilita atender a dificuldade como consequência de uma conjugação de fatores, evitando a culpabilização do aluno. Assim, inclui-se nesta análise um olhar institucional, pois se a dificuldade escolar já é histórica para este aluno, deverá ser contemplada uma forma didática diferente para solucioná-la e verificar porque antes não foi observada e trabalhada.

É necessário também envolver sua família na construção de uma estratégia mútua para auxiliá-lo, assim como buscar e fornecer subsídios para a compreensão do caso. Por outro lado, a Psicologia Positiva ajuda a ampliar minha visão para além da dificuldade, conscientizando e valorizando os aspectos saudáveis que o aluno apresenta e que serão importantes para a superação dos problemas e afirmação da autoestima.

Neste sentido, o professor poderá contribuir para a desconstrução da crença de incompetência em sua disciplina, aplicando exercícios de menor dificuldade, intercalando-os com alguns mais desafiadores para que, segundo o entendimento cognitivo-comportamental, o aluno reforce sua capacidade em aprender.

Para a teoria construtivista de Piaget, é preciso também que o professor facilite o desenvolvimento cognitivo, construindo o conhecimento a partir do ponto que o aluno já domina.

Não posso esquecer que a aula é ministrada para uma turma de alunos e que esta pode ajudar ou complicar o processo de ensino/aprendizagem. Este grupo também deve ser incluído, favorecendo com que este aluno seja auxiliado por outros estudantes que dominam melhor aquele conteúdo, que segundo Vygotzky podem trabalhar com o colega em relação a sua Zona de Desenvolvimento Proximal ou de forma vicária, segundo Bandura, mostrando que se eles conseguem aprender, este aluno também conseguirá.

Ainda complementando este processo, o professor deve vincular sua matéria à vida e aos interesses (necessidades de Murray/Maslow) dos alunos e tornar o assunto significativo a eles, motivando-os à aprendizagem. No entanto, um professor desmotivado não consegue motivar. E novamente a teoria sistêmica mostra a necessidade de também atender aos docentes enquanto pessoas. O psicólogo escolar é o profissional da escuta também na escola e seja sob entendimento psicanalítico, humanista, sistêmico ou qualquer outra linha teórica que mais domine, ou todas juntas, deve acolher as demandas dos profissionais em Educação. É necessário criar espaços de escuta individuais, de aconselhamento, e grupais como grupos operativos (segundo Pichon RIvier e Bleger). Estes espaços têm como objetivo favorecer a resiliência (Psicologia Positiva) e os vínculos entre os colegas, para que construam sua própria identidade institucional, forte mas permeável, transformando-se em fenômenos transicionais como Winnicott tão bem descreveu.

Quis com um simples e cotidiano caso mostrar que necessitamos da contribuição das várias luzes teóricas e que elas não necessariamente se excluem, ao contrário, cada uma possibilitando a iluminação mais clara das diversas facetas que cada pessoa ou grupo apresenta e que os torna únicos e por isso fascinantes.

Enquadrar pessoas dentro dos limites de cada teoria é apequenar a Psicologia, deturpando seu objetivo maior que é favorecer o desenvolvimento da pessoa em sua plenitude emocional, relacional, comportamental e cognitiva.

E não menos importante é permitir que o psicólogo transite por diversos enfoques, aproveitando de todas as contribuições e tornando-se um profissional mais completo e livre.

Vivien Rose Bock – Psicóloga Clínica e Escolar, mestre em Psicologia Social e da Personalidade, Formação em Psicoterapia de Família e Casal, professora da PUCRS, autora do livro “Professor e Psicologia Aplicada na Escola” e “Motivação para Aprender, Motivação para Ensinar”, coordenadora do CAPE

A Carreira de Psicólogo Escolar

8 dez

por Vivien Rose Böck,
psicóloga clínica e escolar, mestre em Psicologia e diretora do CAPE

 

Continuação do post A Carreira na Psicologia Escolar – leia aqui

Além das condições que buscam contemplar a maior flexibilização para o mercado de trabalho, o desenvolvimento de uma carreira também é fortemente influenciado pelos diferentes ciclos de vida do profissional. Mainiero e Sullivan (2005) descrevem a teoria caleidoscópica de como as pessoas alteram o desenho de suas carreiras de acordo com os diferentes aspectos da sua vida. Neste sentido, se valem da figura do caleidoscópico, que transforma as imagens dentro do seu tudo, à medida que é girado. Também assim os profissionais alteram “o mosaico” de suas carreiras ao necessitarem se adequar aos fatores exigidos por seus papeis sociais, necessidades e relacionamentos.

Segundo este modelo, as pessoas alteram suas profissões para ajustar-se às mudanças da vida, repensando suas prioridades profissionais. Temos então que aquilo que era mais importante em um determinado momento pode tornar-se secundário em outro, e assim havendo alterações nas prioridades em função da dinâmica e interação entre os diferentes aspectos da vida. Em analogia ao caleidoscópico, que tem três espelhos, este modelo teórico prevê que são três os parâmetros para a tomada de decisões de carreira: Autenticidade, Balanço e Crescimento. E eu quero aproveitar estes parâmetros e relacioná-los com a carreira de Psicólogo Escolar.

A Autenticidade está associada a ser fiel a si mesmo e a seus valores, refletindo uma tendência a procurar uma profissão significativa em relação a seus valores e características – e aqui vejo com fidedignidade os psicólogos escolares, que eu particularmente nunca conheci uma psicóloga escolar que não tivesse seus valores pessoais afinados com o interesse pelas questões educacionais e a inter-relação com os aspectos relacionais e comportamentais. Apesar de ainda perdurar a falsa visão de que outras áreas da Psicologia recebem economicamente mais que a escolar, estas profissionais permanecem vinculadas a esta área.

Já o parâmetro Balanço está relacionado ao equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, e também à necessidade de, frente a uma decisão de carreira, analisar as possíveis consequências para o contexto familiar e de relacionamentos.  Aqui é mais fácil visualizar como o trabalho vinculado à Escola favorece, principalmente às mulheres, já que elas tendem a tomar decisões profissionais que sejam positivas para si, considerando também o impacto que suas ações provocarão em sua família em relação aos filhos, casamento e cuidado com pais idosos e familiares – diferentemente dos homens que tendem a tomar decisões de carreira com base em seus objetivos individuais. Mesmo antes de formarem suas famílias, é comum ouvir de jovens psicólogas a preocupação em conciliar a profissão com o cuidado com os futuros filhos e veem na Psicologia Escolar um campo que propicia este balanço, sendo que é comum trabalhar um turno ou em horários alternados/flexíveis, propiciando maior proximidade com a família e satisfação com suas necessidades. Além disso, também é comum que a profissional possa matricular a criança na mesma escola que trabalha ou para a qual presta serviços, e acompanhando sua educação com maior proximidade. Sem contar que há um desconto interessante na mensalidade quando o aluno é filho de funcionário da escola.

As mulheres com frequência se veem na situação de criar alternativas ou tomar decisões de carreira que lhes permitam gerenciar suas responsabilidades profissionais e domésticas, por não encontrarem o apoio necessário nos modelos de organizações e empresas tradicionais ou tampouco no suporte do pai ou marido.  E neste sentido, a profissional da Educação percebe nos meios educacionais a possibilidade de balanço entre estes importantes aspectos de sua vida.

O terceiro parâmetro é o de Crescimento, que corresponde à necessidade de evolução contínua e superação de desafios profissionais, além da busca por um trabalho estimulante com foco no avanço da carreira. Assim a necessidade de aperfeiçoamento deve ser feito através de cursos de pós-graduação seja em especializações ou na vida acadêmica, pois as fronteiras do conhecimento sempre estão avançando e a atualização é uma constante.

Estes desafios dentro da carreira de Psicologia Escolar ou das demais profissionais em Educação estão vinculados a novos projetos que enfrentem antigos desafios como a desmotivação discente e docente ou do enfrentamento à intolerância com as diferenças. De criar a partir de cada universo escolar, um multiplicador de esperança e atitudes que fazem estas mudanças acontecerem.

Mas estas experiências consolidadas com sucesso necessitam ser compartilhadas, divulgadas para que possam ser desenvolvidas por outras escolas e para isso é importante comunica-las em forma de artigos, livros, encontros científicos, como nossa Jornada, sem esquecer de antes de tudo, divulgar seu trabalho na sua própria escola, reforçando a importância do papel da psicóloga escolar junta à comunidade escolar e da direção de sua instituição. O marketing autêntico e consistente é muitas vezes esquecido ou relegado por nossa categoria e depois vêm com a queixa de não reconhecimento do nosso trabalho. Por outro lado, o crescimento profissional e econômico também se dá na possibilidade de conjunção da área da Psicologia Escolar com várias outras como o trabalho em paralelo de Psicologia Clínica, em psicopedagogia, de Orientação Profissional, em palestras nas semanas pedagógicas de formação continuada, por exemplo. Mas este conjunto de possibilidades só se torna real e factível se o psicólogo escolar desenvolver o autogerenciamento de sua carreira, até porque, como vimos no começo, esta é uma necessidade atual no mundo do trabalho, porque os tempos mudaram.

A Carreira na Psicologia Escolar

29 nov

por Vivien Rose Böck,
psicóloga clínica e escolar, mestre em Psicologia e diretora do CAPE

Este texto é um pouco diferente dos demais apresentados aqui no nosso blog, porque não vamos falar de outros, de como entender as famílias, os bebês, a inclusão escolar. A ideia é de podermos refletir sobre nós mesmos, sobre a carreira ou as carreiras de quem atua como profissional da Educação está construindo.

Como o CAPE abriu um novo setor sobre desenvolvimento de carreiras – Especialização em Psicologia do Desenvolvimento de Carreiras – fiquei pensando na nossa carreira dentro do amplo espectro da Psicologia Escolar. Nesses meus pensamentos, também lembrei que, como professora da PUCRS e na especialização de Psicologia Escolar e Gestão do CAPE/FATO, ouço frequentemente as dúvidas e ansiedades das alunas e alunos sobre como construir essa carreira, aonde e como procurar emprego, ou como fazer consultoria nas escolas. Frente a estas perguntas e principalmente frente à realidade profissional de mercado, pode-se constatar que a psicologia escolar responde às mesmas circunstâncias que as demais profissões de ensino superior em relação ao desenvolvimento de carreira.

A carreira é um processo que ocorre ao longo da vida e refere-se – mas não se restringe – ao desempenho de atividades profissionais, envolvendo aspectos tanto objetivos quanto subjetivos. A partir da década de 70, a dinâmica das relações de trabalho sofreu alterações significativas, decorrentes da aceleração dos avanços tecnológicos, do ingresso significativo das mulheres no mercado de trabalho e das políticas governamentais de austeridade. Sendo assim, a carreira tradicional do psicólogo escolar empregado na escola perdeu espaço para novas formas de interação, em que o contrato entre a escola/psicólogo já não contempla a promessa de um emprego estável ou de um desenvolvimento profissional linear e seguro.

Muitos estudos apontam a coexistência, na atualidade, de padrões de carreiras tradicionais com padrões de carreiras contemporâneos.  Mas o que é a carreira contemporânea?

Ela exige um compromisso dos profissionais com a realização de uma série de atividades autogerenciadas, a fim de criar opções de atuação que lhe permita atingir seus objetivos e garantir a trabalhabilidade.

A trabalhabilidade amplia o conceito da empregabilidade para outras fontes de renda e de realização profissional porque o emprego tem limitações e não deve, atualmente, ser encarado como a única opção. Ou seja, é a capacidade de um profissional de gerar trabalho, mais além do emprego. É como a pessoa constrói sua capacidade produtiva e econômica, seja como empregada, consultora, liberal, autônoma ou empreendedora, enfim, todas as múltiplas formas de trabalho. O psicólogo escolar, mais do que pensar em empregabilidade, deve planejar a carreira de modo a utilizar seu conhecimento e habilidades em atuações diversas. Neste sentido, eu busquei em dois modelos teóricos de desenvolvimento de carreiras algumas ideias de compreensão sobre a carreira de psicólogo escolar.

Carreira Proteana

A primeira referência diz respeito ao estilo de carreira Proteana. Uma orientação proteana implica em que a psicóloga conduza sua carreira de forma proativa, autogerenciada, dirigida por seus valores pessoais, avaliando o seu sucesso de acordo com critérios subjetivos (Hall, 2002), tanto em um emprego formal ou autogerenciado.

Como exemplo destas condições básicas temos os seguintes conceitos:

– Pró-atividade: em nossa profissão é a capacidade de antecipar necessidades e tomar atitudes antes de haver demanda externa para tanto como projetos preventivos de violência escolar, sexualidade, burnout, habilidades sociais, entre outros.  A pró-atividade também é muito importante quando atuamos com consultoria às escolas pois sabemos que muitas instituições ainda desconhecem o amplo espectro de atividades da Psicologia escolar e se restringem a perceber nossa atuação apenas no atendimento individual aos alunos e suas famílias. Assim é necessário a apresentação de projetos que contemplem às demandas mais cotidianas das escolas como já referimos acima, sempre logicamente, adequando-as à realidade de cada contexto. Assim a Psicologia escolar contemporânea passa de uma postura mais passiva de aguardar as demandas e então a agir através da escuta ativa, para uma postura propositiva que propõe atividades de cunho preventivo e assim diminuindo a ocorrência de situações conflitivas e de estresse escolar.

– Autenticidade: diz respeito à característica de sentir-se verdadeiro consigo mesmo, de preservar e valorizar os valores pessoais em questões de ética, religião ou entendimento político. É imprescindível que o psicólogo tenha claro se há concordância entre seus valores pessoais com seu fazer profissional.

– Abertura à experiência: esta é mais que uma característica pessoal e sim uma exigência de nosso tempo. Trata de se ter interesse intrínseco de experiências em uma ampla variedade de áreas. Por exemplo: não se fechar em um nível só de ensino atuando só na Educação Infantil ou só com adolescentes no Ensino Médio; trabalhando em grupo com diferentes profissionais potencializando a abrangência; ou seja, viver efetivamente a interdisciplinaridade. Novas fronteiras de conhecimento e atuação da Psicologia escolar se apresentam como gênero e escola, inclusão, aposentadoria de professores…

– Orientação para objetivos: neste sentido o psicólogo escolar deve sempre enfatizar o seu próprio aprendizado afim de poder aceitar novos desafios como aperfeiçoamento em cursos de especialização, na área acadêmica e em diferentes áreas do conhecimento. Além disso pode focar também seu interesse e preparação para concursos públicos municipais ou federais.

Além da carreira proteana, há outros modelos teóricos que buscam explicar como se desenvolvem as trajetórias profissionais da atualidade. Em nosso próximo post, abordaremos a teoria da Carreira Caleidoscópica, que tenta explicar os parâmetros que guiam a tomada de decisões profissionais dos sujeitos.

Qual o melhor brinquedo para uma criança?

6 out

Dia 12 de Outubro é Dia da Criança e as crianças esperam receber presentes, principalmente brinquedos. Entretanto, muitas pessoas ficam em dúvida: um brinquedo caro, com vários recursos sofisticados, que se movimenta e emites sons, seria um bom presente para uma criança?

O brinquedo para ter a função psicológica de ser uma ponte entre o mundo interno da criança e o meio externo deve ser significado por esta criança. Deve ser caracterizado por ela.

Assim, independente das características do brinquedo em si, seja ele sofisticado, computadorizado ou que seja uma simples bola de meia, a criança deve dar significado pessoal a ela.

Por exemplo: lembro de uma menina de quatro anos de idade que recebeu vários presentes de Natal, entre eles um Papai Noel que cantava e dançava; um cachorrinho que andava, latia e levantava a perninha; e uma boneca simples. Passado o primeiro encantamento com os efeitos especiais dos brinquedos, no outro dia, a menina brincava de dar comidinha para os três da mesma forma, todos se transformaram em filhos.

A criança transforma o brinquedo ou qualquer outro objeto no que ela quiser que seja, ela cria seu mundo com seus significados.

Permitindo-se que a criança signifique ou desfrute do brinquedo como ela quiser, a sofisticação ou a simplicidade não interferem em sua criatividade, ao contrário, é a criatividade que vai interferir no brinquedo.

Para isso, quando muitos dizem que brinquedos simples são melhores para o desenvolvimento infantil, estão manifestando mais sua nostalgia de sua infância do que o entendimento que para a criança tanto faz. Ela poderá optar por um ou outro, conforme o significado que ela lhe criar.

Logicamente a criança também é influenciada pelos apelos da publicidade e se empolga com as ofertas que lhe são sugeridas, mas depois de ser aproveitada a novidade, o que vai contar na brincadeira do dia-a-dia é o que ela criar para este brinquedo.

 

Texto escrito por Vivien Böck – Psicóloga Clínica e Escolar, mestre em Psicologia Social e da Personalidade, Formação em Psicoterapia de Família e Casal, Professora na PUCRS, autora do livro “Professor e Psicologia Aplicada na Escola” e “Motivação para Aprender, Motivação para Ensinar”, coordenadora e professora do CAPE

Limites na Infância: um posicionamento necessário

15 ago

Texto elaborado pela aluna do curso de Formação em Psicologia Escolar, psicóloga Juliana Baía do Vale Santiago, de Belém – PA.

A frase de Hannah Arendt “As crianças deixadas à sua própria sorte, ficarão sujeitas à tirania do próprio grupo” diz respeito à temática da socialização, mais especificamente sobre limites. O desenvolvimento infantil saudável depende fundamentalmente de: 1) cuidados básicos de higiene, alimentação e proteção e; 2) ensino de comportamentos sociais adequados à vida em sociedade. No que se circunscreve ao ensino de comportamentos sociais, é mister ratificar que os limites são necessários ao processo de “humanização” da criança, facilitando a sua inserção nos mais variados ambientes sociais.

Sendo assim, a família é o primeiro círculo de coexistência grupal. É na relação com os pais e outros cuidadores significativos que a criança aprende as regras sociais, por meio de instruções diretas, vivências de tentativa e erro e observação de modelos. A criança começa a identificar as formas de ser no mundo, como se comportar, o que fazer para experienciar trocas afetivas e outras maneiras de reforço social. Contudo, a criança ainda não sabe até onde deve ir, qual o máximo de coisas que pode fazer, qual a intensidade de seu agir. Daí a importância da imposição de limites pelos cuidadores, sobretudo os pais.

Assim sendo, a criança ainda não tem maturidade e prática suficientes para discriminar como portar-se diante do mundo. São os pais que facilitarão esse aprendizado, como mediadores entre a criança e o mundo. A necessidade de limites inicia-se fisicamente, com a aprendizagem da noção de consciência corporal pelo bebê. Á medida que a simbiose mãe-filho vai sendo quebrada o neném passa a perceber onde termina o seu corpo e onde principia o corpo do outro, acomodando então o embrião de conceitos muito mais refinados, como empatia e autoconhecimento.

Logo, conforma o bebê vai crescendo, os pais passam a fornecer limites de comportamento, orientando a criança no que ela pode e o que ela não pode fazer. Nesse processo há a necessidade de cercear as ações com muita frequência, todavia esse é um movimento educativo fundamental, caso contrário, corre-se o risco de transferir aos filhos as responsabilidades que são dos cuidadores. Em uma família em que as crianças mandam, há claramente uma desorganização psicológica por partes dos adultos, os quais podem estar tendo dificuldades em internalizar o papel de responsáveis por outra vida, além das suas próprias.

Portanto, uma criança que não tem limites está à mercê do mundo. Diferentemente do que muitos pais pensam, os limites servem para proteger a criança de si mesma, de sua falta de habilidades para lidar com situações que só a experiência fornecida pelo tempo pode proporcionar. Constantemente a conduta dos pais de não fixar limites aos filhos deriva de um sentimento de culpa por não poder estar mais perto da criança, ou também pelo cansaço e esgotamentos físicos e emocionais que as mães precisam lidar com as exigências e pressões do cotidiano.

Portanto, a criança que cresce sem limites, quando passa a conviver em outros ambientes, tais como a escola, manifesta dificuldades em compreender os direitos dos outros, em controlar seus próprios sentimentos e em aguardar os momentos adequados para dar vazão aos seus anseios. A criança sem limites não é livre, muito pelo contrário: ela é controlada pelos seus desejos. Ela passa a agir de modo que suas vontades sejam atendidas por todos, o que pode provocar repulsa em outras pessoas, inclusive de outras crianças.

Assim, a criança sem limites perde muitas trocas significativas, passando frequentemente a lidar com a exclusão social. O filho educado dessa forma vive sem referências de certo e errado. Ele precisa do contato com o outro, mas exige essa aproximação de maneira inadequada, deturpando as relações e gerando muito sofrimento para si e para a sociedade. A criança desenvolve-se com valores questionáveis que podem gerar atitudes violentas e disruptivas. Por isso, estabelecer limites é um posicionamento responsável, digno do amor que toda criança necessita e merece.

 

Família e escola: uma aproximação necessária

12 maio

por Vivien Böck, psicóloga, diretora do Centro de Aperfeiçoamento em Psicologia Escolar

O senador Cristovam Buarque apresentou um projeto de lei que, resumidamente, obriga os pais dos alunos de todas as escolas brasileiras, públicas ou particulares, a comparecerem à escola de seus filhos, ao menos uma vez a cada dois meses a fim de acompanharem mais efetivamente a vida escolar deles.

Trata-se de uma proposta polêmica que vem suscitando críticas que alegam que esta participação familiar deveria ser decidida voluntariamente, pela conscientização da importância de seu envolvimento para o sucesso escolar do aluno. Sem dúvida, melhor seria se os responsáveis pela criança ou jovem participassem ativamente sem necessidade da pressão legal. No entanto, não é o que acontece. Ao contrário, cada vez mais os professores queixam- se que estão assumindo as funções paternas da educação, que as famílias estão delegando à escola a educação informal como a instalação de limites no comportamento como respeito pelos colegas e pela autoridade docente.

Além disso, diversos estudos comprovam que o desempenho escolar é positivamente influenciado pela valorização da aprendizagem por parte da família. Assim esta lei pretende que ao aumentar o entrosamento entre pais e escola, o processo educativo também melhore e tenhamos uma educação mais efetiva.

Por outro lado, ao adentrarem os muros das escolas, os pais perceberão e se envolverão com muito mais questões deste universo do que unicamente com o acompanhamento escolar dos filhos mas também com os aspectos institucionais, com a qualidade do ensino, as dificuldades que a escola enfrenta, os métodos e a formação dos professores. Ao se comprometerem com a aprendizagem também exercerão seu papel de cidadãos críticos e fiscalizadores daquilo que é oferecido como Educação. A exigência sobre a qualidade do ensino será maior, assim como a valorização da profissão docente e da necessidade urgente da sociedade e dos governos restabelecerem a Educação como prioridade nacional.

Já por parte da escola, esta terá também que mostrar um desempenho melhor, a começar por organizar reuniões mais produtivas e interessantes aos pais, não apenas uma repetição de encontros enfadonhos e desmotivadores da presença familiar. Se os pais forem exigidos a acompanharem a vida escolar dos filhos, a escola também será mais exigida por parte da família.

Estas duas instituições, família e escola, são constituintes da infância e da adolescência e juntas podem criar estratégias de ação e reflexão sobre a realidade da Educação. E sem dúvida, os mais beneficiados não serão apenas os estudantes, mas todos nós, a sociedade brasileira.

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Ensinar: exercício de imortalidade

10 fev

“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naquele cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais…”  (Rubem Alves)

O exercício da mediação dos processos de aprendizagem é o que, em diversos aspectos, nos capacita e nos insere nas mais abstratas camadas da cultura. Boa parte de tais mediações são promovidas pelo sistema escolar, e têm como figura principal o professor. É preciso entender que estes processos também atravessam e são atravessados pela afetividade das relações: negar ou gerenciar mal tais processos originam um mal estar comum a todos os envolvidos.

As descobertas da infância e da adolescência, a curiosidade genuína acerca de si e acerca do mundo, estão presentes na escola e são o motor de seu funcionamento. Acontece que, como todo processo, tende a passar do caos ao cosmos, e esta tarefa não é simples. Quando o desafio surge, a quem aquele caos incomoda? Como manejar a diversidade presente em uma sala de aula para que todos sejam capazes de aprender de forma significativa, entendendo os arranjos e composições que surgem do caos e ganham sentido no cosmos? É também sobre como entender a si mesmo e sobre o outro, em relação com o outro, para ter parâmetros de si. O professor precisa estar ciente disto, ser relembrado disto, para que sua prática dê movimento ao engenho próprio; de outra maneira, apenas contribuirá com o movimento estereotipado das engrenagens de uma prática morna.

Quanto mais souber dele mesmo, como pessoa e como profissional, quanto mais bem resolvidas forem suas relações e interações, mais ferramentas terá o professor para dar suporte ao real aprendizado, que sustentará percepções sobre o mundo e possibilidade futuras e presentes de ação nele.

Texto elaborado por Solan Ravi Costa Magalhães,
aluno do curso de Formação em Psicologia Escolar EAD

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As Consequências da Alfabetização Precoce

2 dez

Texto escrito de autoria de Ana Lúcia Machado, intitulado “Porque não alfabetizei meus filhos antes dos sete anos e as 6 consequências da Alfabetização Precoce”, disponível neste link.

“Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.”
Carlos Drummond de Andrade

Tenho dois filhos. O mais velho, entrou na universidade este ano e a caçula está às vésperas de começar o ensino médio. O que me confere o distanciamento necessário para uma avaliação consciente do resultado das opções que fizemos em relação à  educação deles.

Quando o primogênito nasceu, caiu em minhas mãos um livro intitulado “Como ensinar os bebês a ler”. Como sou uma leitora contumaz, logo dei conta de conhecer o  método de alfabetização de bebês proposto nessa publicação. Confesso que fiquei chocada e ainda depois de tantos anos, me lembro da sensação desconfortante que essa leitura me causou. No final do livro, havia textos poéticos de crianças alfabetizadas em tenra idade pelo método. Eram poemas que denotavam tal densidade, tamanha angústia nas entrelinhas, uma visão cinzenta do mundo, que me assustou e me fez perceber quão nefasta é a alfabetização precoce na vida de uma criança. E logo entendi a verdadeira linguagem da criança pequena, e a forma como ela apreende e aprende o mundo. Quando o meu olhar e do meu bebê se encontravam, e um sorriso iluminado se abria em seu rostinho, com sons e aquele balbuciar característico dos bebês, ficou claro para mim que o ser humano é um ser brincante e que seu desenvolvimento e aprendizado está fundamentado numa linguagem lúdica.

Lembro também da minha irmã caçula, mais nova que eu 17 anos. Ela foi uma criança tão brincante! Levava tão a sério seu ofício de brincar! Passava horas e horas concentrada, criando brincadeiras, construindo seus brinquedos. Quando chegou a hora de ir para o 1º ano escolar e ser alfabetizada, seu desejo por brincar ainda era tão gritante, que minha mãe, em sua sabedoria foi até a escola e pediu para a diretora deixá-la  mais um ano na pré-escola. E assim foi que feliz da vida ela pôde amadurecer e se preparar para a alfabetização no ano seguinte, sem prejuízo algum à sua vida escolar.

Foi observando o quanto as crianças precisam correr, pular, rolar, rodar, rir, e o quanto elas são curiosas, ávidas a explorar tudo que as cercam, que tive a certeza de que para meus filhos se desenvolverem de forma natural e saudável, o melhor a fazer seria favorecer o brincar. E desta forma optei por uma pré-escola com foco no brincar livre na natureza. O início do processo de alfabetização de ambos, só ocorreu a partir dos 7 anos, quando eles estavam prontos e maduros para as atividades intelectuais.

A natureza é uma grande mestra e criança aprende brincando. O brincar é uma atividade espontânea e nata em toda criança. O brincar ensina tudo o que os pequenos precisam aprender. Paulo Freire diz: “Primeiro a criança lê o mundo para depois ler as letras.” No contato com a natureza a criança aprende o que não pode ser ensinado nem pelos pais, nem por professores. A necessidade da criança de movimento é imensa e constante, isto a leva a conhecer e explorar o mundo que a cerca.  As vivências e brincadeiras ao ar livre proporcionam  inúmeras conquistas:

-Autonomia e segurança

-Conhecimento do próprio corpo,

-Habilidades motoras, destreza e equilíbrio corporal

-Florescimento da imaginação e fantasia

-Interesse e encantamento pelo mundo

-Vitalidade e saúde

Olhar uma criança brincando é reaprender a dimensão do humano. Quando brinca, a criança está inteira na brincadeira. Ela brinca com todo o seu ser.

Entretanto, o livre brincar está em declínio na sociedade contemporânea. Infelizmente a Educação Infantil está cada dia mais parecida com o Ensino Fundamental, por causa da ênfase na alfabetização. Atividades que requerem que a criança seja capaz de se sentar em uma mesa e completar uma tarefa usando lápis e papel, que antes estavam restritas às crianças de 5 e 6 anos de idade, são agora dirigidas às crianças ainda mais novas, que não têm habilidades motoras e não têm a capacidade de concentração para isso, com exigências de que devem concluir seus trabalhos e atividades, antes que possam ir brincar. O sistema escolar tradicional tem produzido crianças completamente desinteressadas pela escola.

As consequências da pressão escolar e alfabetização precoce são muito sérias e devemos estar atentos a elas:

1)Desvitalização  do organismo,

2)Empobrecimento da capacidade imaginativa e criativa

3)Apatia, desinteresse pelo mundo

4) Dificuldades  nos relações sociais

5) Agressividade

6)Stress infantil

Crianças que são tolhidas na sua necessidade de brincar terão dificuldades de decodificar o mundo. Stuart Brown, psiquiatra americano, pioneiro na pesquisa sobre o brincar, em seus estudos profundos sobre histórias de vida de assassinos e alcoólatras, descobriu a ausência do brincar na vida dessas pessoas. Seus anos de prática clínica comprovam que brincar bastante na infância gera adultos felizes e bem sucedidos e a capacidade de continuar nutrindo este ser brincante que somos, nos mantém joviais e saudáveis ao longo da vida. Brincar é vital.

Brincar, como disse Albert Einstein, é a forma mais plena de fazer ciência, de explorar e investigar as coisas.

Sei que remar contra a maré é mais difícil, mas neste caso vale a pena. Vale questionar o sistema e defender o direito das crianças viverem a infância como deve ser, com respeito, em sua plenitude, encanto e beleza. Como tão bem versejou Fernando Pessoa,

Quando as crianças brincam

E eu as ouço brincar,

Qualquer coisa em minha alma

Começa a se alegrar.

E toda aquela infância

Que não tive me vem,

Numa onda de alegria

Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,

E quem serei visão,

Quem sou ao menos sinta

Isto no coração.

Abraço

Ana Lúcia Machado

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Enfrentando o Bullying nas Escolas

20 out

por Vivien Rose Böck, psicóloga e coordenadora do CAPE

O fenômeno bullying não é novo nas escolas mas, nos últimos anos, a psicologia escolar e a sociedade têm se debruçado com maior atenção em função de sua gravidade e aumento na frequência com que tem surgido. A palavra inglesa bullying deriva de bully que quer dizer valentão, brigão e denota um tipo especial de violência muito comum nas interações entre pares, especialmente entre crianças e adolescentes nas escolas. Consiste na imposição de violência física ou psicológica, de forma repetida, sem motivação aparente, em relações de desequilíbrio de poder.

Para que o fenômeno se verifique, é preciso que as vítimas sejam “selecionadas” pelos agressores, que passam então a inferiorizá-las com a repetição de agressões. Por isso, uma briga ou uma gozação eventual não se configura em bullying, pois é necessário que seja uma ação repetitiva. Também é muito comum ouvir que os alunos fizeram bullying com o professor: isto não é bullying, mas pode ser considerado falta de limites ou de respeito. Também não é bullying quando o professor ofende o aluno: isto é abuso moral. Bullying é entre pares, entre pessoas em categorias iguais – alunos com alunos, ou professores com professores. Entre os comportamentos que configuram como bullying estão ofender, humilhar, espalhar boatos, isolar, bater, perseguir, assediar, roubar, quebrar pertences.

É um problema mundial sendo encontrado em toda e qualquer escola, seja ela pública ou particular, rural ou urbana. Os adultos muitas vezes minimizam a importância destes fatos, principalmente os pais dos agressores, e a falta de resposta facilita a formação e a consolidação de modelos de comportamento, rotulando quem é vítima e quem é agressor.

Papéis relacionados ao bullying:

Autores ou agressores – em geral são alunos com pouca empatia. Podem provir de famílias com pouco relacionamento afetivo entre os membros ou com pais que exercem supervisão pobre sobre os filhos, toleram e oferecem como modelo um comportamento agressivo ou explosivo.

Nos EUA (2009), sabe-se que cerca de 60% dos autores de bullying, entre o 6º e 9º ano são condenados por pelo menos um crime até a idade de 24 anos.

Vários são os motivos que os levam a esta prática, entre eles: inveja (sucesso da vítima), preconceito, busca pelo poder (para o centro das atenções), mídia (o que vê na tela) e repetição (do modelo familiar).

Vítimas – são os alunos que sofrem as agressões. Não há um perfil único, mas frequentemente são alunos com poucas habilidades sociais. Têm poucos amigos, são passivos e não reagem efetivamente às agressões sofridas. Podem ser filhos superprotegidos e pouco assertivos.

Há também a vítima provocadora, que apresenta um funcionamento invasivo, intrometendo-se em conversas e brincadeiras, cometendo “trapalhadas” sociais que os outros da mesma idade evitam.

Os alunos vítimas passam a ter baixo rendimento escolar, resistindo ou recusando-se a ir à escola, apresentando distúrbios psicossomáticos, como dores de cabeça, dores de barriga e febre. Estudos demonstram uma forte prevalência de casos de depressão e forte ideação suicida.

Testemunhas – são a grande maioria dos jovens. Eles convivem, assistem a violência e se calam por medo de serem “a próxima vítima”. Sentem-se inseguros sobre o fazer e incomodados com a violência e também podem ter prejuízos acadêmicos e sociais. As consequências são perniciosas para todos os envolvidos. Em certos casos a situação se converte em um cenário fechado e clandestino.

Em alguns casos, a vítima acaba aprendendo que a única forma de sobreviver é se converter em um agressor, desenvolvendo a crença de que a violência é inevitável. Resulta também na diminuição da autoestima, tendência a isolamento e efeitos graves sobre o rendimento acadêmico.

O Bullying é um problema complexo e de causas múltiplas, portanto cada escola deve desenvolver sua própria estratégia para reduzí-lo. De modo geral, a escola deve:

  • Desenvolver programas de prevenção disseminando o conhecimento sobre este tema para os alunos, professores e pais;
  • Capacitar docentes e funcionários para o diagnóstico e desenvolvimento de manejos específicos;
  • Agir precocemente contra o bullying (quanto mais cedo cessar, melhor será);
  • Manter atenção permanente;
  • Orientar os alunos/vítimas e seus familiares, oferecendo apoio psicológico e encaminhar para o atendimento especializado quando necessário;
  • Conscientizar os alunos/agressores e seus familiares sobre as consequências do bullying e garantir compromisso destes com um convívio respeitoso;
  • A punição aos agressores deve ser vinculada a práticas restaurativas;
  • Colocar a disposição da comunidade escolar denúncias anônimas em caixa para recados, junto ao SOE ou com professores.

Bullying Escola Psicologia Escolar

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