Inclusão na Educação Infantil

17 jun

Muitas vezes o processo de inclusão no ambiente escolar nos coloca à frente de situações inusitadas. Dentre eles, podemos citar o caso de uma professora de uma turma de Educação Infantil, com crianças de 4 a 5 anos, que relatou que um aluno se recusou a segurar a mão de outra colega porque “ela é esquisita”, referindo-se a uma colega com Síndrome de Down. A professora ficou chocada com a atitude e pediu à coordenação uma sugestão do que fazer com este menino, e também gostaria de realizar uma atividade com sua turma para a melhor aceitação desta colega com síndrome de Down.

Nesse sentido, pensando em como lidar com a situação, a psicóloga Adriane de Cássia Alves Gonçalves coloca que o despertar para as diferenças e semelhanças entre as pessoas ocorre na fase da educação infantil. Naturalmente chama a atenção das crianças qualquer outra que apresenta características que se destaquem de forma explícita, como acontece em crianças com síndrome de Down, que fisicamente apresentam diferenças notáveis. Nesse sentido, frente à preocupação e reação da professora eu a acolheria para ouvi-la e junto refletir sobre a atitude da criança de que não há nada que não possa ser trabalhado, como em outras situações: crianças negras, meninos de cabelo comprido, meninas de cabelo curto, etc.. Trabalhar as diferenças precisa fazer parte do cotidiano escolar.

A professora precisa entender a natureza da “rejeição ao diferente” para que a atitude do menino não seja “potencializada” e vista como algo tão “surpreendente”, mas que faz parte do trabalho educativo em relação “ao outro diferente de mim”. Por mais que a atitude surpreenda a professora, chama a atenção sua reação de “choque”, o que pode demonstrar ainda o despreparo da mesma para reconhecer a naturalidade do estranhamento do menino para intervir com tranquilidade na situação.

Conversar com o menino sem julgamento moral, sem criticar sua atitude como “feia” sem obriga-lo a dar a mão para a colega, será a forma de entender que ele como criança está conhecendo o mundo com diferenças e precisa entender que não há problema em ser diferente e que, por isso, a colega não é “esquisita”, mas tem o seu jeito. O trabalho com crianças é sempre com dois caminhos concomitantes: o da intervenção imediata quando algo ocorre e o planejamento pedagógico diário que contempla temas como este. Dessa forma, projetos devem fazer parte do trabalho sobre as diferenças e semelhanças: somos todos pessoas, crianças, mas cada um tem o seu jeito. Isso pode ocorrer através de histórias, brincadeiras, desenhos, conversas na rodinha, trabalhar o corpo, as diferenças físicas, os gostos e interesses diferentes e muitas outras maneiras podem ser pensadas para que as crianças curtam os trabalhos ao mesmo tempo em que estão familiarizando-se com o tema em questão. Esse trabalho precisa acontecer independente da turma ter alguma criança com necessidades especiais. No entanto, quando houver, o foco no tema precisa ser intensificado, onde as famílias e corpo docente precisam acolher lidando com “medos” e preconceitos. A inclusão traz benefícios para todos os envolvidos na medida em que se aprende o senso de humanidade e aceitação do outro diferente de mim e proporciona a criança o convívio com seus pares, auxiliando positivamente no desenvolvimento integral.

Desde que a educação inclusiva tem sido um repensar permanente se percebe que ainda mobiliza famílias e professores, mas com aceitação maior do que era anteriormente. Assim, precisa ser falado sobre isso, equipe pedagógica trabalhar com o corpo docente esta realidade, pois precisam estar preparados para lidar e intervir em situações como essa do menino sem que isso seja algo que “desestabilize” tanto o professor.

Texto elaborado pela psicóloga Adriane de Cássia Alves Gonçalves, aluna do curso de Formação em Psicologia Escolar.

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Janeiro Branco também se faz nas escolas

18 jan
O Janeiro Branco é uma campanha com o objetivo de mobilizar e conscientizar a sociedade em favor da saúde mental.

Neste sentido, é importante pensar no papel da psicologia também no contexto das escolas. É através da Psicologia Escolar que se pode promover a saúde mental da forma mais ampla, atingindo grande número de pessoas e atuando preventivamente em crianças, jovens e suas famílias.

As principais queixas surgidas no âmbito escolar referem-se a distúrbios psicológicos que alunos e professores vem apresentando. São comportamentos desviantes que traduzem e promovem grande sofrimento psicológico.

Por parte do alunato temos o quadro de bullying onde alguns alunos tornam-se vítimas de humilhações morais e/ou ataques físicos por parte de colegas e agressores que se comprazem em suas agressões, sendo que ambas as partes deste infeliz fenômeno merecem um olhar atento em suas consequências e motivações e uma intervenção especializada e não amadora e meramente paliativa como vem ocorrendo em nossas escolas.

Podemos citar ainda o problema das drogas, que é ameaça constante e que consome muitos de nossos jovens; a falta de limites e a violência escolar permeiam as salas de aula interferindo no processo de ensino-aprendizagem e são de difícil manejo para professores e diretores; a desmotivação que acomete os alunos para aprender (e que é um dos fatores proeminentes da evasão escolar) como aos professores para ensinar.

Não menos preocupante, sob o ponto de vista da saúde mental, encontra-se os docentes com queixas de desânimo, de falta de energia para continuar sua docência, quadro este conhecido como a Síndrome de Burnout. Este stress que não prejudica apenas o professor, mas que faz com que ele trate seus alunos com ironia e frieza, desqualificando-o enquanto pessoa e minando de forma, muitas vezes, irreversível o vínculo afetivo entre educador e educando.

Além disso, as famílias encontram-se cada vez mais desorientadas e isoladas para educar seus filhos e necessitam de orientação nesta missão, sobrecarregando os docentes e que nem sempre, sabem como ajudar.

Evoluímos no número de crianças e jovens que frequentam nossas escolas e devemos agora fazer com que a qualidade da vida escolar acompanhe a quantidade. Neste sentido faz-se necessário que a escola seja apoiada por profissionais aptos para o atendimento e entendimento dos conflitos emocionais e comportamentais.

 

8 Dicas para Lidar com a Dependência Tecnológica das Crianças

12 out

por Vivien Rose Bock, psicóloga clínica e escolar, coordenadora do CAPE

Um dos assuntos mais comentados nas escolas e nas famílias hoje em dia, é sobre o uso e abuso da internet, dos games e das redes sociais.

A confusão e preocupação está instalada a medida que a geração de pais e professores não domina esta nova tecnologia tanto quanto a de seus filhos e todos estamos aprendendo a lidar também com suas consequências boas e com as prejudiciais.

Impedir o acesso a essas novas tecnologias é querer conter o rumo da história e deixar os filhos e alunos a margem de uma evolução de seu tempo e que abre para horizontes sem fim o conhecimento.

Mas é necessário conter o excesso de tempo de uso e filtrar os dispositivos que são acessados pelas crianças e jovens.

Neste sentido achamos pertinente compartilhar um artigo do jornal Zero Hora desta terça-feira que fornece dicas para pais e filhos (e porque não, aos professores também?) sobre a dependência tecnológica:

1 –  Tempo: independentemente do tipo de tela, fique atento ao tempo de exposição de seu filho.  — A TV abafa o pensamento consciente porque as imagens se sucedem muito rapidamente. Não dá para pensar em cada uma — diz Valdemar Setzer, do Departamento de Ciência da Computação da USP.

2 – Diretrizes: a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que crianças de até dois anos não tenham contato com os equipamentos. Para crianças entre dois e cinco anos, a recomendação é de uso máximo de uma hora diária e, para as maiores de seis, até duas horas. As diretrizes são semelhantes às da Associação Americana de Pediatria.

3 – Horário: mesmo dentro da cota, evite o contato pouco antes do sono ou durante as refeições. A tela dificulta que o cérebro receba estímulos sobre sabor, textura. — E a noção de saciedade fica prejudicada — diz Liubiana Araújo, da SBP.

4 – Tecnologia a seu favor: para ajudar no controle de tempo, já existem aplicativos que conectam o celular dos pais ao equipamento dos filhos e indicam o número de horas que estão conectados.

5 – Participação: nos momentos de acesso aos equipamentos, esteja junto — o tempo nas telas não precisa ser solitário. Jogar videogame com as crianças ou comentar os filmes amplia as interações, importantes para o desenvolvimento infantil.

6 – Dê o exemplo: pais hiperconectados têm mais dificuldade em propor aos filhos que eles fiquem sem as telas. Experimente se desligar do celular por algumas horas.

7 – Zonas livres: crie em casa áreas sem aparelhos – como o quarto das crianças ou a sala de jantar – e momentos de “detox”. Há famílias que já têm caixinhas, onde deixam os celulares quando chegam do trabalho ou da escola.

8 – Sinais de excesso: caso perceba um uso abusivo, procure ajuda psicológica. Falta de concentração, irritação e impaciência podem ser sinais de excesso. Ligado à USP, o site Dependência de Internet reúne mais informações e dicas sobre vício tecnológico.

Fonte: Jornal Zero Hora – 08.10.2018

Desafios da inclusão na educação básica

10 jul

Texto elaborado pelo psicólogo e aluno do curso de Formação em Psicologia Escolar, Deskson de Castro Almeida Júnior, de Lauro de Freitas – BA.

Atualmente, faço parte do Núcleo de Educação Especial da Secretaria Municipal de Educação de Lauro de Freitas – BA, onde trabalho como psicólogo junto a uma equipe multidisciplinar formada por pedagoga, psicopedagoga, assistente social, entre outros. Nosso trabalho é promover e garantir a educação especial na cidade de Lauro de Freitas, e para isso, prestamos assistência a todas as escolas públicas do município, aos gestores, professores, cuidadores, pais e os próprios alunos que estão matriculados na rede e são público-alvo da educação especial, que são pessoas com deficiência. A partir dessa contextualização, trago meu olhar sobre o processo de inclusão das pessoas com deficiência na educação básica a partir da minha experiência profissional.

A inclusão da criança com deficiência na educação básica vem sendo um desafio para todos. Dentre esses desafios encontramos, primeiramente, resistência por parte de gestores, professores, cuidadores, colegas e até mesmo dos pais da criança. Muita dessa resistência surge pela frustração que a criança com deficiência traz á lógica escolar e a família. É notável que essa criança com deficiência frustra expectativas e anseios comuns a equipe escolar e aos pais que esperam desempenho e produtividade do aluno. É comum ouvir queixas e acusações de dificuldades em controlar a sala por causa da presença de um aluno com deficiência pois, segundo relato de professores, ele demanda atenção e cuidados acima da média e isso muitas vezes é o suficiente para desorganizar toda a sala.

Os pais possuem também trazem desafios a inclusão da criança com deficiência na educação básica: rejeição, abandono, negligência ou o contrário, superproteção são comportamentos que dificultam a escolarização e criam diversos problemas de comunicação e relação com a escola, pois, muitas vezes os alunos com deficiência são os que mais precisam da presença dos pais no processo de escolarização segundo a própria deficiência.

Existem ainda a descrença na educação inclusiva, mais uma vez através de questionamentos em torno do desempenho dos alunos com deficiência. O alvo principal das queixas dos profissionais das redes se voltam para as crianças com deficiência intelectual ou transtornos globais do neurodesenvolvimento. Entendemos que essa resistência específica acontece porque são alunos que tem mais dificuldades com o processo pedagógico e que, por tanto mobilizam maior angústia e ansiedade dos pedagogos que se sentem pressionados pela escola e pelos pais. Infelizmente, é importante trazer que muitos alunos da educação inclusiva na rede pública não estão alcançando as expectativas mínimas de escolarização.

A educação inclusiva é um desafio ainda maior na rede pública porque é um fato de que existem sérios problemas de estrutura e recursos para a escolarização de alunos regulares, maior ainda se torna a escolarização de alunos com deficiência que requerem uma adaptação estrutural, pedagógica e social e que muitas vezes não acontece. Encontramos escolas que fazem o possível para que ocorra a inclusão, mas que mesmo com profissionais preparados, estrutura razoável e atenção a adaptação do aluno não conseguem tal feito, por falta de uma rede de saúde qualificada que possa dar suporte psicoterápico e medicamentoso á um aluno autista, por exemplo. Existem casos de bullying dentro da escola, que comprometem a saúde emocional da criança com deficiência que sofre rejeição e isolamento social no âmbito escolar.

Para essas e outras demandas, existe o nosso núcleo que atua de maneira preventiva e interventiva para tornar possível a inclusão nas escolas. Tenho conhecimento de outros profissionais que afirmam que nós estamos avançando no município em relação a outras cidades. Mas acredito que a educação inclusiva, ainda esteja no estágio de integração. Como pude colocar, a inclusão da criança com deficiência na educação básica não é só um problema da escola, mas da família, da comunidade e da sociedade como um todo, que precisam ser solucionadas através de políticas públicas que reconheçam a cidadania das pessoas com deficiência e garantam seus direitos como cidadãos, porque, acredito eu, este é o cerne do problema.

O que mais eu devo fazer para motivar meus alunos?

28 maio

Confira trecho do livro “Motivação para Aprender, Motivação para Ensinar” de autoria da psicóloga Vivien Rose Böck, diretora do CAPE.

 

Alguns anos atrás, uma professora de literatura, falava sobre um momento muito frustrante vivido com seus alunos. Contou que havia preparado com todo esmero e dedicação uma aula de literatura sobre a fase do Romantismo. Passara a noite trabalhando e julgou que ficara muito bom, a ponto de mostrar o planejamento para um colega professor da mesma matéria. Mas sua frustração surgiu com os alunos, para os quais preparara a aula. Eles não manifestaram qualquer interesse pelo assunto, alguns passaram o período conversando, outros estavam totalmente desatentos.

 A professora  perguntou, num misto de desencanto e indignação:

 “-Tanto trabalho, tanta dedicação e os alunos nem aí. Eu me dediquei, criei uma aula interessante e eles não se interessaram. O que mais eu devo fazer para motivar meus alunos?”

O que se pode fazer é mudar o entendimento, a linha de compreensão sobre motivação escolar.

No caso exemplificado anteriormente, a professora trouxe autores, datas, obras, muito bem organizados, mas isso não atraiu seus alunos. Eles não demonstraram necessidade interna própria de saber sobre o Romantismo. Talvez essa fosse uma vontade da docente, talvez venha a ser uma necessidade futura dos alunos, mas naquele momento não havia essa carência e assim não houve motivação e em conseqüência, não houve aprendizagem.

No entanto os jovens querem saber de romance, os adolescentes facilmente são românticos, pois esta é uma característica desta etapa da vida, os namoros, os encontros, os primeiros amores… Provavelmente a docente teria tido mais atenção dos alunos se tivesse aproveitado e integrado as experiências românticas deles com a fase literária do Romantismo.

O erro da docente foi acreditar que ela podia motivá-los.

Ninguém motiva alguém. A idéia, muito disseminada, de o professor conseguir motivar os alunos é falsa e cria expectativas frustrantes.

Para que existam estudantes motivados para a aprendizagem, é necessário entender o processo motivacional e as circunstâncias nele implicadas.

 

O que é motivação?

A motivação é compreendida como uma energia interna que impele as pessoas à ação.

 Segundo Bergamini (1997) a “motivação é função tipicamente interior a cada pessoa, como uma força propulsora que tem suas fontes frequentemente escondidas no interior de cada um e cuja satisfação ou insatisfação fazem parte integrante de sentimentos experimentados tão somente dentro de cada pessoa”.

A motivação provem da pessoa, de dentro para fora, e não de fatores externos ao sujeito, apesar de poder ser influenciada por eles. A própria palavra – motivo + ação – descreve este processo, ou seja, é necessário existir um motivo interno para desencadear uma ação.

Os motivos são entendidos como necessidades próprias da pessoa, não satisfeitas, que geram sensações físicas ou emocionais negativas, de tensão, as quais ameaçam a integridade da pessoa. (Bergamini, 1997; Huertas, 1997; Vernon, 1973). Conforme a intensidade deste desconforto, os indivíduos sentem-se pressionados a agir de modo a encontrar um equilíbrio de bem-estar pessoal. Assim quanto mais intensa for a necessidade, maior será a motivação.

A motivação é conseqüência de necessidades não satisfeitas.

A pessoa aprende quando enfrenta em si e reconhece uma situação de falta ou carência. Se esta problematização não ocorre, a aprendizagem não se inicia ou, se iniciada, não se consolida (Fernández, 2001).

A simples enunciação do objeto de conhecimento, normalmente, não é suficiente para mobilizar a atenção do aluno sobre o tema. É necessária uma ação educativa no sentido de provocar, desafiar, estimular, ajudar o estudante a estabelecer uma relação significativa com o assunto, que corresponda, em algum nível, à satisfação de uma necessidade sua, mesmo que esta necessidade não estivesse tão consciente de início. (Vasconcellos, 1992)

Portanto para que os alunos sejam motivados deve-se pensar quais são as necessidades deles, ou como fazer para provocá-las, para suscitar suas carências.

O desafio está em fazer o aluno desejar o que lhe é oferecido em sala de aula pelo professor.

Saiba mais em  www.capepsi.com.br/publicacoes

ou em nosso curso EAD Professor: Pessoa e Profissional 

Dica de Filme: Vermelho como o Céu

28 abr

Filme indicado para o trabalho de sensibilização para a inclusão escolar de deficientes visuais é uma ótima dica para assistir durante o feriado. Confira abaixo a análise desta história real, filmada com extrema sensibilidade e poesia, feita pela psicóloga e especialista em Psicologia Escolar (CAPE) Marina Consul:

O filme se passa da década de 70 e retrata a história de Mirco Balleri, um menino de dez anos que após sofrer um acidente ao brincar com a arma do pai perde quase completamente a visão. Por indicação do médico que o atendeu – que reforça que há uma Lei na qual deficientes não podem frequentar escolas regulares, mas sim ir para uma escola especial – os pais decidem com insegurança e pesar levar o menino para um internato religioso que atende crianças cegas.

Nesse internato o diretor é extremamente rígido e amargurado, provavelmente por ter perdido a visão também. A escola utiliza um regimento de rotina e controle sobre os alunos, restringindo as atividades como brincar apenas no pátio da escola, fazer as refeições e dormir, além da limitante atividade de tecelagem para as crianças. Mirco tem dificuldades em se adaptar à escola e se recusa a aprender o Braile, mas mesmo assim seu professor Don Giulio não desiste de estimulá-lo.

Certo dia Mirco encontra um gravador e começa a explorar sons e gravá-los para usar na apresentação do trabalho que o professor pediu sobre as estações do ano. A partir daí, o aluno entra num universo novo, de fantasias, de construção de aprendizagem de uma forma criativa. Quando o diretor descobre repreende o menino, proibindo que seguisse com a intromissão no material da escola destinado ao uso dos professores. Seu professor Don Giulio, no entanto oferece um gravador com a condição de que Mirco aceite a aprender o braile.

Mirco faz amizade com a menina Francesca – filha de uma funcionária da escola, e juntos embarcam no projeto de criar uma história com sons gravados que imitam dragões, princesas, madrasta, passos, enfim diversas situações que uma pessoa cega pode ouvir para imaginar. Os outros colegas descobrem e se interessam, e Mirco acaba arranjando papéis para a participação de todos. Quando o diretor descobre a atuação dos alunos com o gravador, ele decide expulsar o aluno Mirco, o que causa revolta no professor Don Giulio, nos alunos e em Francesca que busca a ajuda de Ettore, um ex-aluno cego que trabalha na fundição da cidade e que Mirco e Francesca conheceram num dia que fugiram do colégio para passear de bicicleta. O professor Don Giulio se manifesta contra a expulsão e Ettore convida cidadãos e equipes de outras escolas que se posicionam contra a expulsão do aluno na porta do instituto.

Por fim, o professor Don Giulio passa a se responsabilizar e decide junto com os alunos apresentar para os pais dos internos a produção que eles mesmos construíram para a peça de final de ano, ainda com a ideia de que todos deveriam usar vendas para ouvir e sentir como os seus filhos.

Esse filme remete a um tema atual que é o da inclusão nas escolas normais, ou seja, de poder integrar, valorizar e incentivar o aluno com deficiências a desenvolverm suas habilidades de aprendizagem junto com outras crianças sem deficiências. A deficiência passa a ser vista como uma particularidade, como todas as pessoas tem as suas. Acredito que a troca de experiências e a convivência com outras crianças promove a diminuição do preconceito e da exclusão e permite trocas muito ricas na convivência escolar. Para Tessaro (2005), só se pode falar de integração quando há uma efetiva interação entre deficientes e não deficientes. Os programas de ensino especial devem estar compatibilizados com os do ensino regular, portanto, faz-se necessário o convívio social entre alunos, professores e demais profissionais da escola, assim como a família é importante nesse processo. A autora ainda ressalta que a integração é um processo complexo que envolve a adaptação de todas as partes: população geral, profissionais, familiares e a própria pessoa a ser integrada. Vale ressaltar que o princípio básico da educação inclusiva implica na possibilidade de que todas as crianças aprendam juntas, independente de suas dificuldades ou diferenças. (Tessaro, 2005)

O’Regan (2007), refere-se as limitações visuais como uma variedade de dificuldades, desde pequenas limitações até a cegueira total. O autor enfatiza que para fins educacionais, tais crianças são consideradas portadoras de limitações visuais se necessitarem de adaptações em seu ambiente e/ou apoio físico por meio de equipamentos para acompanhar o currículo. Aqueles cuja visão é corrigida por óculos não devem ser incluídos neste grupo. Uma criança cega costuma ser definida como aquela que necessita de métodos não-visuais para aprender – como o Braile – bem como a audição. Segundo Gotti (1998) citado por Tessaro (2005), a inclusão escolar significa um novo marco conceitual e ideológico, o qual precisa envolver políticas, serviços sociais e comunidade. Implica considerar, aceitar e reconhecer a diversidade na vida e na sociedade, isto é, identificar que cada indivíduo é único, com suas necessidades, desejos e peculiaridades próprias.

As escolas necessitam de muitos recursos ainda para alcançar a proposta da inclusão nas escolas, e para isso deve-se contar com a habilitação dos profissionais da escola e o amparo do Estado. De acordo com a Revista Nova Escola, “a organização dos objetos da sala de aula deve ser compartilhada com o aluno, a fim de facilitar o acesso e a mobilidade. Manter carteiras, estantes e mochilas sempre na mesma ordem, comunicar alterações previamente e sinalizar os objetos para que sejam facilmente reconhecidos. O aluno cego tem direito a usar materiais adaptados, como livros didáticos transcritos para o braile ou a reglete (prancheta para a escrita em Braile) para escrever durante as aulas. Antecipar a adaptação dos textos junto dos educadores responsáveis pela sala de recursos, que deve contar com máquinas braile, impressora e equipamentos adaptados.

A alfabetização em braile das crianças com cegueira total ou graus severos de deficiência visual é simultânea ao processo de alfabetização das demais crianças na escola, mas com o suporte essencial do Atendimento Educacional Especializado (AEE). Vale lembrar que, de acordo com o Decreto 6.571, de 17 de setembro de 2008, o Estado tem o dever de oferecer apoio técnico e financeiro para que o atendimento especializado esteja presente em toda a rede pública de ensino. Mas cabem ao gestor da escola e às Secretarias de Educação a administração e o requerimento dos recursos para essa finalidade. Oferecer ambientes adaptados, com sinalização em braile, escadas com contrastes de cor nos degraus, corredores desobstruídos e piso tátil, é mais uma medida importante para a inclusão de deficientes visuais. O entorno da escola também deve ser acessível, com a instalação de sinais sonoros nos semáforos e nas áreas de saída de veículos próximas da escola”.

O personagem Mirco é um menino repleto de criatividade e com muita capacidade para aprender, mas o instituto em que estava não estimulava nem oferecia novas intervenções no ensino, não havia atualização nem a escuta da necessidade dos alunos. Mirco adora cinema, inclusive levou seus colegas escondido a uma sessão como uma forma de fazer algo inovador, tanto que todos se divertiram muito. Hoje em dia já existem filmes com audiodescrição – que descrevem as cenas entre os diálogos, o cenário é descrito para que os deficientes visuais possam apreciar filmes. No site audiodescrição.com.br é possível encontrar a seguinte definição: “A audiodescrição é o recurso que permite a inclusão de pessoas com deficiência visual em cinema, teatro e programas de televisão. No Brasil, segundo dados do IBGE, existem aproximadamente 16,5 milhões de pessoas com deficiência visual total e parcial, que se encontram  excluídos da experiência audiovisual e cênica. A acessibilidade nos meios de comunicação é um tema que está em pauta no mundo todo. Os esforços neste sentido visam não apenas proporcionar o acesso a produtos culturais a uma parcela da população que se encontra excluída, como também estabelecer um novo patamar de igualdade baseado na valorização da diversidade.”

O cartunista Maurício de Sousa criou uma personagem cega chamada Dorinha que se envolve em várias atividades comuns com os outros personagens, demonstrando as potencialidades que podem ser desenvolvidas. Criou também filmes da Turma da Mônica com audiodescrição para crianças cegas, que podem ser facilmente encontrados na rede de internet. Maurício de Sousa define a personagem: “Dorinha é uma das mais novas integrantes da Turma da Mônica. Garota cega, que reconhece seus  amigos pela voz, pelo cheiro, e está completamente enturmada. É inteligente, meiga e participa de várias aventuras da Turma da Mônica. Estreou na edição no 221 do gibi da Mônica, editora Globo. Antenada com tudo o que acontece à sua volta, inclusivena moda, Dorinha está sempre deslumbrante, com roupas fashion, corte de cabelo moderno, óculos escuros, segurando, numa mão, a sua bengalinha e na outra, a coleira do Radar, um labrador esperto e carinhoso que a ajuda a se guiar. A personagem, bastante extrovertida, brinca normalmente como qualquer criança. Ela surpreende os amiguinhos com suas habilidades e sentidos aguçados como o tato, a audição e o olfato”. (Maurício de Sousa).

Considero a inclusão um tema ainda pouco discutido em relação à forma que deve ser adotada. As escolas ainda não estão preparadas para assumir e integrar um aluno com necessidades especiais. Acredito que seja um longo caminho a ser trilhado e uma grande responsabilidade do psicólogo escolar atuar nessas circunstâncias, se informando e auxiliando a escola com essa nova realidade que tende a trazer benefícios para todos.

 

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Teoria Integrativa

3 jan

Frequentemente alunos me questionam: mas afinal, qual é a linha teórica em Psicologia que adotas, que segues?

Ora, eu sou psicóloga, e portanto eu sigo todas as teorias as quais penso que o caso comporta, ou que se beneficiará com sua aplicabilidade e com seu entendimento. Não sou escrava de uma teoria e nem escravizo meu cliente/paciente e seu contexto enquadrando-os e muitas vezes deformando-os para que se encaixem na linha teórica.

Não entendo porque não lançar mão, ou melhor lançar luz de entendimentos diferentes mas complementares sobre uma situação que sendo iluminada por várias fontes e por diversos ângulos, será melhor percebida e terá maior clareza para uma intervenção terapêutica ou preventiva. Por outro lado, apenas com uma luz, só uma parte surge e o resto será de sombras, as quais podem escurecer aspectos importantes que não permitirão um desenvolvimento pleno ou até poderão ser a base do iceberg.

Vamos a um exemplo corriqueiro: aluno com um histórico de dificuldade em uma determinada matéria, que por isso já não se dedica muito em aula, perturba seus colegas com conversas e reclama do professor quando este lhe chama a atenção.

Sob as minhas várias óticas teóricas e sem me aprofundar em mais detalhes do caso, posso entender que este aluno (sob uma visão cognitivo comportamental) mantém uma crença de incompetência de compreensão desta disciplina, pois sua história escolar assim o comprova. Complementarmente, entendo que quando o professor lhe chama a atenção, ele se sente ameaçado em sua autoestima e segundo a teoria da motivação de Murray (advinda de Maslow) gera necessidade de defesa de humilhação e preservação de autoestima e então reclama do docente. Mas também compreendo, psicanaliticamente, que neste confronto existe uma transferência inconsciente de sua relação com a autoridade parental e que o professor precisa entender que o comportamento reivindicatório do aluno não se dirige totalmente à sua pessoa, para poder manejar melhor a situação e poder auxiliar seu aluno em sua dificuldade. Para que o docente tenha este conhecimento psicanalítico e das demais teorias, recorro à teoria sistêmica que aborda a dificuldade em sua complexidade.

A psicoeducação do corpo docente quanto às teorias de desenvolvimento psicológico promove uma formação mais global da prática pedagógica, instrumentalizando os professores de conhecimentos e manejos mais adequados em sala de aula. Além disso, a teoria sistêmica possibilita atender a dificuldade como consequência de uma conjugação de fatores, evitando a culpabilização do aluno. Assim, inclui-se nesta análise um olhar institucional, pois se a dificuldade escolar já é histórica para este aluno, deverá ser contemplada uma forma didática diferente para solucioná-la e verificar porque antes não foi observada e trabalhada.

É necessário também envolver sua família na construção de uma estratégia mútua para auxiliá-lo, assim como buscar e fornecer subsídios para a compreensão do caso. Por outro lado, a Psicologia Positiva ajuda a ampliar minha visão para além da dificuldade, conscientizando e valorizando os aspectos saudáveis que o aluno apresenta e que serão importantes para a superação dos problemas e afirmação da autoestima.

Neste sentido, o professor poderá contribuir para a desconstrução da crença de incompetência em sua disciplina, aplicando exercícios de menor dificuldade, intercalando-os com alguns mais desafiadores para que, segundo o entendimento cognitivo-comportamental, o aluno reforce sua capacidade em aprender.

Para a teoria construtivista de Piaget, é preciso também que o professor facilite o desenvolvimento cognitivo, construindo o conhecimento a partir do ponto que o aluno já domina.

Não posso esquecer que a aula é ministrada para uma turma de alunos e que esta pode ajudar ou complicar o processo de ensino/aprendizagem. Este grupo também deve ser incluído, favorecendo com que este aluno seja auxiliado por outros estudantes que dominam melhor aquele conteúdo, que segundo Vygotzky podem trabalhar com o colega em relação a sua Zona de Desenvolvimento Proximal ou de forma vicária, segundo Bandura, mostrando que se eles conseguem aprender, este aluno também conseguirá.

Ainda complementando este processo, o professor deve vincular sua matéria à vida e aos interesses (necessidades de Murray/Maslow) dos alunos e tornar o assunto significativo a eles, motivando-os à aprendizagem. No entanto, um professor desmotivado não consegue motivar. E novamente a teoria sistêmica mostra a necessidade de também atender aos docentes enquanto pessoas. O psicólogo escolar é o profissional da escuta também na escola e seja sob entendimento psicanalítico, humanista, sistêmico ou qualquer outra linha teórica que mais domine, ou todas juntas, deve acolher as demandas dos profissionais em Educação. É necessário criar espaços de escuta individuais, de aconselhamento, e grupais como grupos operativos (segundo Pichon RIvier e Bleger). Estes espaços têm como objetivo favorecer a resiliência (Psicologia Positiva) e os vínculos entre os colegas, para que construam sua própria identidade institucional, forte mas permeável, transformando-se em fenômenos transicionais como Winnicott tão bem descreveu.

Quis com um simples e cotidiano caso mostrar que necessitamos da contribuição das várias luzes teóricas e que elas não necessariamente se excluem, ao contrário, cada uma possibilitando a iluminação mais clara das diversas facetas que cada pessoa ou grupo apresenta e que os torna únicos e por isso fascinantes.

Enquadrar pessoas dentro dos limites de cada teoria é apequenar a Psicologia, deturpando seu objetivo maior que é favorecer o desenvolvimento da pessoa em sua plenitude emocional, relacional, comportamental e cognitiva.

E não menos importante é permitir que o psicólogo transite por diversos enfoques, aproveitando de todas as contribuições e tornando-se um profissional mais completo e livre.

Vivien Rose Bock – Psicóloga Clínica e Escolar, mestre em Psicologia Social e da Personalidade, Formação em Psicoterapia de Família e Casal, professora da PUCRS, autora do livro “Professor e Psicologia Aplicada na Escola” e “Motivação para Aprender, Motivação para Ensinar”, coordenadora do CAPE

A Carreira de Psicólogo Escolar

8 dez

por Vivien Rose Böck,
psicóloga clínica e escolar, mestre em Psicologia e diretora do CAPE

 

Continuação do post A Carreira na Psicologia Escolar – leia aqui

Além das condições que buscam contemplar a maior flexibilização para o mercado de trabalho, o desenvolvimento de uma carreira também é fortemente influenciado pelos diferentes ciclos de vida do profissional. Mainiero e Sullivan (2005) descrevem a teoria caleidoscópica de como as pessoas alteram o desenho de suas carreiras de acordo com os diferentes aspectos da sua vida. Neste sentido, se valem da figura do caleidoscópico, que transforma as imagens dentro do seu tudo, à medida que é girado. Também assim os profissionais alteram “o mosaico” de suas carreiras ao necessitarem se adequar aos fatores exigidos por seus papeis sociais, necessidades e relacionamentos.

Segundo este modelo, as pessoas alteram suas profissões para ajustar-se às mudanças da vida, repensando suas prioridades profissionais. Temos então que aquilo que era mais importante em um determinado momento pode tornar-se secundário em outro, e assim havendo alterações nas prioridades em função da dinâmica e interação entre os diferentes aspectos da vida. Em analogia ao caleidoscópico, que tem três espelhos, este modelo teórico prevê que são três os parâmetros para a tomada de decisões de carreira: Autenticidade, Balanço e Crescimento. E eu quero aproveitar estes parâmetros e relacioná-los com a carreira de Psicólogo Escolar.

A Autenticidade está associada a ser fiel a si mesmo e a seus valores, refletindo uma tendência a procurar uma profissão significativa em relação a seus valores e características – e aqui vejo com fidedignidade os psicólogos escolares, que eu particularmente nunca conheci uma psicóloga escolar que não tivesse seus valores pessoais afinados com o interesse pelas questões educacionais e a inter-relação com os aspectos relacionais e comportamentais. Apesar de ainda perdurar a falsa visão de que outras áreas da Psicologia recebem economicamente mais que a escolar, estas profissionais permanecem vinculadas a esta área.

Já o parâmetro Balanço está relacionado ao equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, e também à necessidade de, frente a uma decisão de carreira, analisar as possíveis consequências para o contexto familiar e de relacionamentos.  Aqui é mais fácil visualizar como o trabalho vinculado à Escola favorece, principalmente às mulheres, já que elas tendem a tomar decisões profissionais que sejam positivas para si, considerando também o impacto que suas ações provocarão em sua família em relação aos filhos, casamento e cuidado com pais idosos e familiares – diferentemente dos homens que tendem a tomar decisões de carreira com base em seus objetivos individuais. Mesmo antes de formarem suas famílias, é comum ouvir de jovens psicólogas a preocupação em conciliar a profissão com o cuidado com os futuros filhos e veem na Psicologia Escolar um campo que propicia este balanço, sendo que é comum trabalhar um turno ou em horários alternados/flexíveis, propiciando maior proximidade com a família e satisfação com suas necessidades. Além disso, também é comum que a profissional possa matricular a criança na mesma escola que trabalha ou para a qual presta serviços, e acompanhando sua educação com maior proximidade. Sem contar que há um desconto interessante na mensalidade quando o aluno é filho de funcionário da escola.

As mulheres com frequência se veem na situação de criar alternativas ou tomar decisões de carreira que lhes permitam gerenciar suas responsabilidades profissionais e domésticas, por não encontrarem o apoio necessário nos modelos de organizações e empresas tradicionais ou tampouco no suporte do pai ou marido.  E neste sentido, a profissional da Educação percebe nos meios educacionais a possibilidade de balanço entre estes importantes aspectos de sua vida.

O terceiro parâmetro é o de Crescimento, que corresponde à necessidade de evolução contínua e superação de desafios profissionais, além da busca por um trabalho estimulante com foco no avanço da carreira. Assim a necessidade de aperfeiçoamento deve ser feito através de cursos de pós-graduação seja em especializações ou na vida acadêmica, pois as fronteiras do conhecimento sempre estão avançando e a atualização é uma constante.

Estes desafios dentro da carreira de Psicologia Escolar ou das demais profissionais em Educação estão vinculados a novos projetos que enfrentem antigos desafios como a desmotivação discente e docente ou do enfrentamento à intolerância com as diferenças. De criar a partir de cada universo escolar, um multiplicador de esperança e atitudes que fazem estas mudanças acontecerem.

Mas estas experiências consolidadas com sucesso necessitam ser compartilhadas, divulgadas para que possam ser desenvolvidas por outras escolas e para isso é importante comunica-las em forma de artigos, livros, encontros científicos, como nossa Jornada, sem esquecer de antes de tudo, divulgar seu trabalho na sua própria escola, reforçando a importância do papel da psicóloga escolar junta à comunidade escolar e da direção de sua instituição. O marketing autêntico e consistente é muitas vezes esquecido ou relegado por nossa categoria e depois vêm com a queixa de não reconhecimento do nosso trabalho. Por outro lado, o crescimento profissional e econômico também se dá na possibilidade de conjunção da área da Psicologia Escolar com várias outras como o trabalho em paralelo de Psicologia Clínica, em psicopedagogia, de Orientação Profissional, em palestras nas semanas pedagógicas de formação continuada, por exemplo. Mas este conjunto de possibilidades só se torna real e factível se o psicólogo escolar desenvolver o autogerenciamento de sua carreira, até porque, como vimos no começo, esta é uma necessidade atual no mundo do trabalho, porque os tempos mudaram.

A Carreira na Psicologia Escolar

29 nov

por Vivien Rose Böck,
psicóloga clínica e escolar, mestre em Psicologia e diretora do CAPE

Este texto é um pouco diferente dos demais apresentados aqui no nosso blog, porque não vamos falar de outros, de como entender as famílias, os bebês, a inclusão escolar. A ideia é de podermos refletir sobre nós mesmos, sobre a carreira ou as carreiras de quem atua como profissional da Educação está construindo.

Como o CAPE abriu um novo setor sobre desenvolvimento de carreiras – Especialização em Psicologia do Desenvolvimento de Carreiras – fiquei pensando na nossa carreira dentro do amplo espectro da Psicologia Escolar. Nesses meus pensamentos, também lembrei que, como professora da PUCRS e na especialização de Psicologia Escolar e Gestão do CAPE/FATO, ouço frequentemente as dúvidas e ansiedades das alunas e alunos sobre como construir essa carreira, aonde e como procurar emprego, ou como fazer consultoria nas escolas. Frente a estas perguntas e principalmente frente à realidade profissional de mercado, pode-se constatar que a psicologia escolar responde às mesmas circunstâncias que as demais profissões de ensino superior em relação ao desenvolvimento de carreira.

A carreira é um processo que ocorre ao longo da vida e refere-se – mas não se restringe – ao desempenho de atividades profissionais, envolvendo aspectos tanto objetivos quanto subjetivos. A partir da década de 70, a dinâmica das relações de trabalho sofreu alterações significativas, decorrentes da aceleração dos avanços tecnológicos, do ingresso significativo das mulheres no mercado de trabalho e das políticas governamentais de austeridade. Sendo assim, a carreira tradicional do psicólogo escolar empregado na escola perdeu espaço para novas formas de interação, em que o contrato entre a escola/psicólogo já não contempla a promessa de um emprego estável ou de um desenvolvimento profissional linear e seguro.

Muitos estudos apontam a coexistência, na atualidade, de padrões de carreiras tradicionais com padrões de carreiras contemporâneos.  Mas o que é a carreira contemporânea?

Ela exige um compromisso dos profissionais com a realização de uma série de atividades autogerenciadas, a fim de criar opções de atuação que lhe permita atingir seus objetivos e garantir a trabalhabilidade.

A trabalhabilidade amplia o conceito da empregabilidade para outras fontes de renda e de realização profissional porque o emprego tem limitações e não deve, atualmente, ser encarado como a única opção. Ou seja, é a capacidade de um profissional de gerar trabalho, mais além do emprego. É como a pessoa constrói sua capacidade produtiva e econômica, seja como empregada, consultora, liberal, autônoma ou empreendedora, enfim, todas as múltiplas formas de trabalho. O psicólogo escolar, mais do que pensar em empregabilidade, deve planejar a carreira de modo a utilizar seu conhecimento e habilidades em atuações diversas. Neste sentido, eu busquei em dois modelos teóricos de desenvolvimento de carreiras algumas ideias de compreensão sobre a carreira de psicólogo escolar.

Carreira Proteana

A primeira referência diz respeito ao estilo de carreira Proteana. Uma orientação proteana implica em que a psicóloga conduza sua carreira de forma proativa, autogerenciada, dirigida por seus valores pessoais, avaliando o seu sucesso de acordo com critérios subjetivos (Hall, 2002), tanto em um emprego formal ou autogerenciado.

Como exemplo destas condições básicas temos os seguintes conceitos:

– Pró-atividade: em nossa profissão é a capacidade de antecipar necessidades e tomar atitudes antes de haver demanda externa para tanto como projetos preventivos de violência escolar, sexualidade, burnout, habilidades sociais, entre outros.  A pró-atividade também é muito importante quando atuamos com consultoria às escolas pois sabemos que muitas instituições ainda desconhecem o amplo espectro de atividades da Psicologia escolar e se restringem a perceber nossa atuação apenas no atendimento individual aos alunos e suas famílias. Assim é necessário a apresentação de projetos que contemplem às demandas mais cotidianas das escolas como já referimos acima, sempre logicamente, adequando-as à realidade de cada contexto. Assim a Psicologia escolar contemporânea passa de uma postura mais passiva de aguardar as demandas e então a agir através da escuta ativa, para uma postura propositiva que propõe atividades de cunho preventivo e assim diminuindo a ocorrência de situações conflitivas e de estresse escolar.

– Autenticidade: diz respeito à característica de sentir-se verdadeiro consigo mesmo, de preservar e valorizar os valores pessoais em questões de ética, religião ou entendimento político. É imprescindível que o psicólogo tenha claro se há concordância entre seus valores pessoais com seu fazer profissional.

– Abertura à experiência: esta é mais que uma característica pessoal e sim uma exigência de nosso tempo. Trata de se ter interesse intrínseco de experiências em uma ampla variedade de áreas. Por exemplo: não se fechar em um nível só de ensino atuando só na Educação Infantil ou só com adolescentes no Ensino Médio; trabalhando em grupo com diferentes profissionais potencializando a abrangência; ou seja, viver efetivamente a interdisciplinaridade. Novas fronteiras de conhecimento e atuação da Psicologia escolar se apresentam como gênero e escola, inclusão, aposentadoria de professores…

– Orientação para objetivos: neste sentido o psicólogo escolar deve sempre enfatizar o seu próprio aprendizado afim de poder aceitar novos desafios como aperfeiçoamento em cursos de especialização, na área acadêmica e em diferentes áreas do conhecimento. Além disso pode focar também seu interesse e preparação para concursos públicos municipais ou federais.

Além da carreira proteana, há outros modelos teóricos que buscam explicar como se desenvolvem as trajetórias profissionais da atualidade. Em nosso próximo post, abordaremos a teoria da Carreira Caleidoscópica, que tenta explicar os parâmetros que guiam a tomada de decisões profissionais dos sujeitos.

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