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Enfrentando o Bullying nas Escolas

20 out

por Vivien Rose Böck, psicóloga e coordenadora do CAPE

O fenômeno bullying não é novo nas escolas mas, nos últimos anos, a psicologia escolar e a sociedade têm se debruçado com maior atenção em função de sua gravidade e aumento na frequência com que tem surgido. A palavra inglesa bullying deriva de bully que quer dizer valentão, brigão e denota um tipo especial de violência muito comum nas interações entre pares, especialmente entre crianças e adolescentes nas escolas. Consiste na imposição de violência física ou psicológica, de forma repetida, sem motivação aparente, em relações de desequilíbrio de poder.

Para que o fenômeno se verifique, é preciso que as vítimas sejam “selecionadas” pelos agressores, que passam então a inferiorizá-las com a repetição de agressões. Por isso, uma briga ou uma gozação eventual não se configura em bullying, pois é necessário que seja uma ação repetitiva. Também é muito comum ouvir que os alunos fizeram bullying com o professor: isto não é bullying, mas pode ser considerado falta de limites ou de respeito. Também não é bullying quando o professor ofende o aluno: isto é abuso moral. Bullying é entre pares, entre pessoas em categorias iguais – alunos com alunos, ou professores com professores. Entre os comportamentos que configuram como bullying estão ofender, humilhar, espalhar boatos, isolar, bater, perseguir, assediar, roubar, quebrar pertences.

É um problema mundial sendo encontrado em toda e qualquer escola, seja ela pública ou particular, rural ou urbana. Os adultos muitas vezes minimizam a importância destes fatos, principalmente os pais dos agressores, e a falta de resposta facilita a formação e a consolidação de modelos de comportamento, rotulando quem é vítima e quem é agressor.

Papéis relacionados ao bullying:

Autores ou agressores – em geral são alunos com pouca empatia. Podem provir de famílias com pouco relacionamento afetivo entre os membros ou com pais que exercem supervisão pobre sobre os filhos, toleram e oferecem como modelo um comportamento agressivo ou explosivo.

Nos EUA (2009), sabe-se que cerca de 60% dos autores de bullying, entre o 6º e 9º ano são condenados por pelo menos um crime até a idade de 24 anos.

Vários são os motivos que os levam a esta prática, entre eles: inveja (sucesso da vítima), preconceito, busca pelo poder (para o centro das atenções), mídia (o que vê na tela) e repetição (do modelo familiar).

Vítimas – são os alunos que sofrem as agressões. Não há um perfil único, mas frequentemente são alunos com poucas habilidades sociais. Têm poucos amigos, são passivos e não reagem efetivamente às agressões sofridas. Podem ser filhos superprotegidos e pouco assertivos.

Há também a vítima provocadora, que apresenta um funcionamento invasivo, intrometendo-se em conversas e brincadeiras, cometendo “trapalhadas” sociais que os outros da mesma idade evitam.

Os alunos vítimas passam a ter baixo rendimento escolar, resistindo ou recusando-se a ir à escola, apresentando distúrbios psicossomáticos, como dores de cabeça, dores de barriga e febre. Estudos demonstram uma forte prevalência de casos de depressão e forte ideação suicida.

Testemunhas – são a grande maioria dos jovens. Eles convivem, assistem a violência e se calam por medo de serem “a próxima vítima”. Sentem-se inseguros sobre o fazer e incomodados com a violência e também podem ter prejuízos acadêmicos e sociais. As consequências são perniciosas para todos os envolvidos. Em certos casos a situação se converte em um cenário fechado e clandestino.

Em alguns casos, a vítima acaba aprendendo que a única forma de sobreviver é se converter em um agressor, desenvolvendo a crença de que a violência é inevitável. Resulta também na diminuição da autoestima, tendência a isolamento e efeitos graves sobre o rendimento acadêmico.

O Bullying é um problema complexo e de causas múltiplas, portanto cada escola deve desenvolver sua própria estratégia para reduzí-lo. De modo geral, a escola deve:

  • Desenvolver programas de prevenção disseminando o conhecimento sobre este tema para os alunos, professores e pais;
  • Capacitar docentes e funcionários para o diagnóstico e desenvolvimento de manejos específicos;
  • Agir precocemente contra o bullying (quanto mais cedo cessar, melhor será);
  • Manter atenção permanente;
  • Orientar os alunos/vítimas e seus familiares, oferecendo apoio psicológico e encaminhar para o atendimento especializado quando necessário;
  • Conscientizar os alunos/agressores e seus familiares sobre as consequências do bullying e garantir compromisso destes com um convívio respeitoso;
  • A punição aos agressores deve ser vinculada a práticas restaurativas;
  • Colocar a disposição da comunidade escolar denúncias anônimas em caixa para recados, junto ao SOE ou com professores.

Bullying Escola Psicologia Escolar

Lei Antibullying entra em vigor

17 fev

A partir de agora, as instituições de ensino e clubes terão que tomar medidas de prevenção contra o bullying: a lei 13.185/2015, sancionada pela presidente Dilma Rousseff em novembro passado, entra em vigor neste mês, instituindo o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (bullying).

O texto estabelece que as escolas e clubes realizem campanhas educativas sobre o tema e capacitem professores e equipes pedagógicas para implementar ações de discussão, prevenção, orientação e solução para o bullying. O documento também determina que haja a orientação de pais e familiares para identificar vítimas e agressores, e que sejam fornecidas assistência psicológica, social e jurídica aos envolvidos. A punição dos agressores deve ser evitada, privilegiando mecanismos e instrumentos alternativos que promovam a efetiva responsabilização e a mudança de comportamento hostil.

Bullying

De acordo com a lei, bullying é todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidar ou agredir, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas. O bullying pode ser classificado como:

  • verbal – insultar, xingar e apelidar pejorativamente;
  • moral – difamar, caluniar, disseminar rumores;
  • sexual – assediar, induzir e/ou abusar;
  • social – ignorar, isolar e excluir;
  • psicológico – perseguir, amedrontar, aterrorizar, intimidar, dominar, manipular, chantagear e infernizar;
  • físico – socar, chutar, bater;
  • material – furtar, roubar, destruir pertences de outrem;
  • virtual – depreciar, enviar mensagens intrusivas da intimidade, enviar ou adulterar fotos e dados pessoais que resultem em sofrimento ou com o intuito de criar meios de constrangimento psicológico e social.

O diretor do Sindicato dos Professores (Sinpro-DF), Cléber Soares chama a atenção de que há pouco investimento na área de orientação educacional, e que somente os professores, em sala de aula, não darão conta de resolver o problema. “Toda escola precisa de uma equipe psicopedagógica, formada por orientadores e psicólogos. Além disso, é necessário que sejam disponibilizados espaços físicos para esses profissionais trabalharem. Infelizmente, o governo ainda não entende o papel fundamental desses profissionais no ambiente escolar”, destaca o diretor. Ele acredita que a lei é uma iniciativa interessante do Governo Federal, mas que precisa de um olhar mais profundo do poder público para funcionar e dar resultados.

Lei Anti-Bullying foi tema da Jornada do CAPE em 2010

Em 2010, a palestra inaugural da I Jornada Estadual de Psicologia Escolar já havia abordado a importância da legislação e das ações educativas no combate ao problema durante a mesa redonda “Enfrentando o bullying: através da lei e da prática escolar”, em que participaram o vereador Mauro Zacher, autor da Lei Anti Bullying nas escolas de Porto Alegre, e a professora do CAPE Denise Maia. A nova lei, agora em nível nacional, contribuirá para a conscientização e a prevenção desse problema que preocupa as instituições de ensino brasileiras bem como toda a comunidade escolar.

Fontes:
Presidência da República – http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13185.htm
Jornal de Brasília – http://www.jornaldebrasilia.com.br/noticias/cidades/666948/lei-antibullying-preve-que-escolas-adotem-medidas-preventivas-mas-nao-ha-punicoes/

 

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Bullying ou Liberdade de Expressão?

27 jan

O assassinato cruel e covarde dos jornalistas chargistas do jornal francês Charlie Hebdo, por dois muçulmanos, deixou o mundo ocidental estarrecido e indignado pela morte das pessoas, mas principalmente por representar um ataque à liberdade de expressão da imprensa e de todos os cidadãos.

O motivo para o massacre foi a publicação de uma caricatura de Maomé, na capa de uma edição do jornal. Para o islamismo, criar uma imagem do seu profeta é uma blasfêmia e mais ainda por se tratar de uma charge, um deboche a um preceito religioso. Não foi a primeira vez que este jornal produzia uma charge de Maomé.

E para lavar a honra se sua religião, os irmãos muçulmanos assassinaram os jornalistas e humoristas, mas também atingiram um dos preceitos mais valiosos da democracia, o direito à liberdade de expressão.

Diante destes fatos e da repercussão extraordinária que se sucedeu, fiquei pensando na escola…

E fiquei pensando em todos os projetos antibullying desenvolvidos junto aos alunos, professores e pais, fiquei lembrando das entrevistas que psicólogos e orientadores educacionais fazem com os alunos envolvidos em bullying, tanto com os que são vítimas como com os agressores.

Lembrando que bullying consiste em ofender, humilhar, espalhar boatos, isolar, bater, perseguir, assediar, roubar, que ocorre repetidas vezes por parte de um aluno(s) em relação a outro(s) que está em desvantagem de poder defender-se.

Como fica a escola, quando ocorrer um caso de bullying, de um aluno debochar insistentemente de um aspecto físico de outro colega? Quando houverem desenhos caricatos, piadinhas ou outras gozações recorrentes?

Esta situação deixa de ser bullying e passa a ser considerado como exercício da liberdade de expressão?

Os pais dos alunos agressores, que muitas vezes alegam exagero da escola quanto às “brincadeiras” de humilhação de seus filhos para com colegas agora também podem argumentar que seu filho não pode ter sua liberdade de expressão cerceada?

Como é que ficam os alunos ofendidos?

No filme, “Autores da Liberdade”, a professora protagonista da história retém em sala de aula uma caricatura feita por um aluno que debochava do nariz largo de um colega negro. Ao questionar à turma sobre essa gozação, a professora trouxe que assim também os nazistas começaram sua perseguição aos judeus. A partir desta conversa, esta turma passa a se questionar se as diferenças entre eles são motivo para segregação e violência. Este é um dos filmes mais utilizados nas escolas na luta contra o bullying ou nos enganamos e estávamos contra a liberdade de expressão?

por Vivien Rose Bock – Psicóloga Clínica e Escolar, mestre em Psicologia Social e da Personalidade, Formação em Psicoterapia de Família e Casal, professora da PUCRS, autora do livro “Professor e Psicologia Aplicada na Escola” e “Motivação para Aprender, Motivação para Ensinar”, coordenadora do CAPE

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