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A felicidade de aprender

1 jul

A aluna do curso EAD de Formação em Psicologia Escolar, psicóloga Márcia Antunes Correia Leite Alves, de Brasília, nos traz uma reflexão sobre motivação escolar a partir da frase do educador e psicanalista Rubem Alves, 2001: “O que penso dos jovens e da educação não me permite aceitar que a escola seja uma experiência de dor”.

Segundo Rubem Alves, educar não é ensinar os conteúdos que são aprendidos nos livros e computadores, é ter na presença constante do professor uma oportunidade de “ver” o mundo. 

Entretanto, lembramos muito pouco de nossos professores, mas não esquecemos dos amigos, de alguns momentos do recreio e de algumas brincadeiras. Com isso percebemos que as experiências de alegria na escola estão relacionadas às amizades, deixando de lado à alegria de aprender, de compreender e de estudar.

A educação precisa proporcionar às crianças e jovens, a experiência de ver o mundo com seus próprios olhos, descobrir, experimentar, tirar as próprias conclusões das situações apresentadas, pois apenas dessa maneira farão sentido para o aprendizado. Os sentimentos e emoções precisam fazer parte do dia a dia na escola, relacionando-se com uma aprendizagem significativa. Focar mais nos acertos do que nos erros, focar mais na alegria do que na tristeza. Valorizar mais o aluno e a contribuição que ele pode dar para a descoberta do conhecimento. Continue lendo

Bullying ou Liberdade de Expressão?

27 jan

O assassinato cruel e covarde dos jornalistas chargistas do jornal francês Charlie Hebdo, por dois muçulmanos, deixou o mundo ocidental estarrecido e indignado pela morte das pessoas, mas principalmente por representar um ataque à liberdade de expressão da imprensa e de todos os cidadãos.

O motivo para o massacre foi a publicação de uma caricatura de Maomé, na capa de uma edição do jornal. Para o islamismo, criar uma imagem do seu profeta é uma blasfêmia e mais ainda por se tratar de uma charge, um deboche a um preceito religioso. Não foi a primeira vez que este jornal produzia uma charge de Maomé.

E para lavar a honra se sua religião, os irmãos muçulmanos assassinaram os jornalistas e humoristas, mas também atingiram um dos preceitos mais valiosos da democracia, o direito à liberdade de expressão.

Diante destes fatos e da repercussão extraordinária que se sucedeu, fiquei pensando na escola…

E fiquei pensando em todos os projetos antibullying desenvolvidos junto aos alunos, professores e pais, fiquei lembrando das entrevistas que psicólogos e orientadores educacionais fazem com os alunos envolvidos em bullying, tanto com os que são vítimas como com os agressores.

Lembrando que bullying consiste em ofender, humilhar, espalhar boatos, isolar, bater, perseguir, assediar, roubar, que ocorre repetidas vezes por parte de um aluno(s) em relação a outro(s) que está em desvantagem de poder defender-se.

Como fica a escola, quando ocorrer um caso de bullying, de um aluno debochar insistentemente de um aspecto físico de outro colega? Quando houverem desenhos caricatos, piadinhas ou outras gozações recorrentes?

Esta situação deixa de ser bullying e passa a ser considerado como exercício da liberdade de expressão?

Os pais dos alunos agressores, que muitas vezes alegam exagero da escola quanto às “brincadeiras” de humilhação de seus filhos para com colegas agora também podem argumentar que seu filho não pode ter sua liberdade de expressão cerceada?

Como é que ficam os alunos ofendidos?

No filme, “Autores da Liberdade”, a professora protagonista da história retém em sala de aula uma caricatura feita por um aluno que debochava do nariz largo de um colega negro. Ao questionar à turma sobre essa gozação, a professora trouxe que assim também os nazistas começaram sua perseguição aos judeus. A partir desta conversa, esta turma passa a se questionar se as diferenças entre eles são motivo para segregação e violência. Este é um dos filmes mais utilizados nas escolas na luta contra o bullying ou nos enganamos e estávamos contra a liberdade de expressão?

por Vivien Rose Bock – Psicóloga Clínica e Escolar, mestre em Psicologia Social e da Personalidade, Formação em Psicoterapia de Família e Casal, professora da PUCRS, autora do livro “Professor e Psicologia Aplicada na Escola” e “Motivação para Aprender, Motivação para Ensinar”, coordenadora do CAPE

Por uma nova geração de educadores

15 nov

A professora Kátia Maffei dos Reis assumiu uma posição interessante em seu artigo publicado em 10 de novembro no jornal Zero Hora, com um olhar positivo e ativo sobre a profissão do professor. Vale a pena conferir:

Por uma nova geração de educadores

Falar sobre educação gera polêmica. Uma pessoa lhe pergunta sua profissão e você responde: professor. Nesse momento, a expressão e os comentários de pena ganham a cena. Infelizmente, na opinião popular, professor é um trabalhador sofrido, injustiçado, que perdeu o respaldo e ainda recebe um salário miserável. Se assim fosse, a profissão já havia sido extinta. Afinal, por que continuar sendo professor se tudo é tão massacrante?

Acredito que essa ideia tão negativa começou a se propagar com notícias de violência contra o educador, com greves da classe, e pela má interpretação de algumas leis. As frases mais comuns são “professor não pode fazer nada”, “perdeu a autoridade”.
Comecei a trabalhar como professora há cinco anos, um ano depois de concluir a licenciatura em Letras. Inicialmente, apenas no turno da noite, porque eu gerenciava uma loja durante o dia; três anos depois, consegui trabalho em mais uma escola. Deixei o comércio para ser somente professora, atividade com a qual me realizo. Ser educador não é esse caos que fomentam por aí. A verdade é que os alunos mudaram. Os estudantes de hoje são a geração Z, da tecnologia, da inovação, o que também pede educadores de uma nova geração. Não precisa ser da mesma faixa etária, aliás, nem é possível, mas no mínimo com uma cabeça Z.

É comum ouvir discursos como “no meu tempo os alunos eram melhores”. Acontece que esse tempo já foi. Agora, o tempo é outro. Precisamos aceitar que a evolução deve ser acompanhada. E que bom que os alunos mudaram. São eles os responsáveis por deixar nossa mente tão aberta. Ser professor dessa geração é ter o privilégio de rejuvenescer todos os dias. É assim que eu me sinto. E isso não significa que eu não levo meu trabalho a sério. Pelo contrário. Sempre tenho minhas aulas bem elaboradas, exijo o empenho da gurizada, cobro muito diariamente, tudo é avaliado na minha aula: rendimento técnico, relações humanas, cumprimento de normas. Os adolescentes devem ter a consciência de que todos os atos geram alguma consequência. No entanto, tudo isso não precisa ser feito na base do berro, da ofensa, da régua, do grão de milho. Física ou verbal, violência gera mais violência. Isso não é novidade. Obviamente, sempre existem os dias difíceis, em que todas as tentativas de conduzir a aula parecem frustrantes. Há os momentos em que se faz necessário levantar o tom de voz e falar com firmeza, mas não com estupidez.

Dessa maneira é que se vai adquirindo respeito como professor. Precisamos parar de arranjar desculpas: famílias mal estruturadas, leis polêmicas, salários não tão atraentes. Com certeza, esses fatores devem ser pensados, mas não é por isso que podemos desistir das nossas convicções. Cada um deve fazer a sua parte e jamais esquecer que a educação se constrói com base em bons exemplos.

 

Remexendo as entranhas das escolas

17 out

Confira abaixo o artigo escrito por Esther Pillar Grossi, doutora em Psicologia da Inteligência pela Universidade de Paris, publicado no jornal Zero Hora de 16 de outubro de 2012.

   A aprendizagem é um fenômeno social. Esta descoberta, que foi primeiramente apontada por Vygotski, e depois amplamente aprofundada por Wallon _ médico francês contemporâneo de Piaget _ muda radicalmente o olhar do consenso histórico de que aprender é um fato individual.
    E ela tem consequências práticas profundas.
    Em primeiro lugar, a sala de aula deve ter novíssima estética. Adeus à cena escolar das filas de alunos, um atrás do outro, voltados para o professor postado na frente deles, explicando-lhes e escrevendo no quadro para que copiem.
    As trocas entre os alunos ocupam um espaço importante, inclusive porque “há momentos em que um bom professor pode prestar um péssimo serviço aos alunos”. Esta afirmação é de Jean Piaget, o grande responsável pela descoberta de que entre as experiências e os conhecimentos existe uma construção, o que deu nascimento à teoria denominada Construtivismo.
    A importância das trocas entre alunos se assenta no fato de que se aprende na interlocução com três grupos de pessoas _ os que sabem mais, os que sabem o mesmo e os que sabem menos do que aqueles que aprendem. Até hoje, somente foi valorizada e operacionalizada a aprendizagem com quem sabe mais que os alunos, isto é, com os professores. Portanto, entre os alunos deve reinar o silêncio, para que eles possam escutar devidamente a professora. O silêncio dos alunos é uma condição imperativa na escola que aí está, pois se parte do princípio de que quem ensina é o (a) professor (a). Quando se descobre que Piaget está cheio de razão ao nos alertar de que há momentos e muitos em que se aprende mais com iguais do que com superiores, há que se dar uma reviravolta na estruturação da escola.
    Outrossim, esta reviravolta não concerne somente à sala de aula. Ela abarca a escola como um todo. Como “só ensina quem aprende”, o corpo docente tem também que estruturar-se calcado no grupal e não no individual. E um grupo tem prerrogativas próprias para que seja operativo. O grupo precisa ser estável e precisa de coordenação, porque “não há grupo sem coordenação”, como bem lembrou Madalena Freire.
    O corpo docente de uma escola precisa ter as riquezas de um grupo estruturado. Um grupo só é estruturado se ele é estável e bem coordenado. Uma escola sem a consciência e a consistência de que seus professores e funcionários agem como parte de um grupo, e não como uma peça isolada numa engrenagem meramente técnica ou administrativa, é um arremedo de escola e nela pouco se ensinará e, portanto, pouco se aprenderá.
    É inadmissível que os professores e funcionários de uma escola não tenham senão apego a ela porque ela é próxima de suas residências ou por outras razões que não a da concretização de que, como um corpo, nela produzem aprendizagem para seus alunos.
    É, portanto, fora de propósito que se aceite uma movimentação de seus professores sem nenhuma razão profissional, ou seja, sem algo voltado para os objetivos ensinantes de uma escola.
Além disso, como grupo só existe com coordenação, ele só existirá com alguém que articule as autorias de quem dele participa. A coordenação é tanto mais necessária quanto mais os agrupados são autores, isto é, são criativos face às tarefas pelas quais cada grupo é responsável no contexto em que atua.
   Pois, muito especialmente uma escola verdadeira só ensina se há invenção por parte de seus professores, uma vez que o processo de aprendizagem dos alunos é eminentemente singular e surpreendente, para o qual a criatividade é pedra fundamental.
   Assim, há que se ter, portanto, coragem de remexer nas entranhas das escolas, a fim de que elas acompanhem os mais consistentes e atualizados achados das ciências do aprender _ o de que as aprendizagens acontecem grupalmente, o que fez consolidar-se uma nova teorização sobre a aquisição dos conhecimentos _ o pós-construtivismo.
   Incorporar às escolas a dimensão social da sua estruturação é uma das chaves da possibilidade de reverter a catástrofe das poucas aprendizagens, evidenciadas em todas as avaliações a que elas são submetidas, nacional e internacionalmente.

Fonte: Artigo| Remexendo as entranhas das escolas.

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