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Desafios da inclusão na educação básica

10 jul

Texto elaborado pelo psicólogo e aluno do curso de Formação em Psicologia Escolar, Deskson de Castro Almeida Júnior, de Lauro de Freitas – BA.

Atualmente, faço parte do Núcleo de Educação Especial da Secretaria Municipal de Educação de Lauro de Freitas – BA, onde trabalho como psicólogo junto a uma equipe multidisciplinar formada por pedagoga, psicopedagoga, assistente social, entre outros. Nosso trabalho é promover e garantir a educação especial na cidade de Lauro de Freitas, e para isso, prestamos assistência a todas as escolas públicas do município, aos gestores, professores, cuidadores, pais e os próprios alunos que estão matriculados na rede e são público-alvo da educação especial, que são pessoas com deficiência. A partir dessa contextualização, trago meu olhar sobre o processo de inclusão das pessoas com deficiência na educação básica a partir da minha experiência profissional.

A inclusão da criança com deficiência na educação básica vem sendo um desafio para todos. Dentre esses desafios encontramos, primeiramente, resistência por parte de gestores, professores, cuidadores, colegas e até mesmo dos pais da criança. Muita dessa resistência surge pela frustração que a criança com deficiência traz á lógica escolar e a família. É notável que essa criança com deficiência frustra expectativas e anseios comuns a equipe escolar e aos pais que esperam desempenho e produtividade do aluno. É comum ouvir queixas e acusações de dificuldades em controlar a sala por causa da presença de um aluno com deficiência pois, segundo relato de professores, ele demanda atenção e cuidados acima da média e isso muitas vezes é o suficiente para desorganizar toda a sala.

Os pais possuem também trazem desafios a inclusão da criança com deficiência na educação básica: rejeição, abandono, negligência ou o contrário, superproteção são comportamentos que dificultam a escolarização e criam diversos problemas de comunicação e relação com a escola, pois, muitas vezes os alunos com deficiência são os que mais precisam da presença dos pais no processo de escolarização segundo a própria deficiência.

Existem ainda a descrença na educação inclusiva, mais uma vez através de questionamentos em torno do desempenho dos alunos com deficiência. O alvo principal das queixas dos profissionais das redes se voltam para as crianças com deficiência intelectual ou transtornos globais do neurodesenvolvimento. Entendemos que essa resistência específica acontece porque são alunos que tem mais dificuldades com o processo pedagógico e que, por tanto mobilizam maior angústia e ansiedade dos pedagogos que se sentem pressionados pela escola e pelos pais. Infelizmente, é importante trazer que muitos alunos da educação inclusiva na rede pública não estão alcançando as expectativas mínimas de escolarização.

A educação inclusiva é um desafio ainda maior na rede pública porque é um fato de que existem sérios problemas de estrutura e recursos para a escolarização de alunos regulares, maior ainda se torna a escolarização de alunos com deficiência que requerem uma adaptação estrutural, pedagógica e social e que muitas vezes não acontece. Encontramos escolas que fazem o possível para que ocorra a inclusão, mas que mesmo com profissionais preparados, estrutura razoável e atenção a adaptação do aluno não conseguem tal feito, por falta de uma rede de saúde qualificada que possa dar suporte psicoterápico e medicamentoso á um aluno autista, por exemplo. Existem casos de bullying dentro da escola, que comprometem a saúde emocional da criança com deficiência que sofre rejeição e isolamento social no âmbito escolar.

Para essas e outras demandas, existe o nosso núcleo que atua de maneira preventiva e interventiva para tornar possível a inclusão nas escolas. Tenho conhecimento de outros profissionais que afirmam que nós estamos avançando no município em relação a outras cidades. Mas acredito que a educação inclusiva, ainda esteja no estágio de integração. Como pude colocar, a inclusão da criança com deficiência na educação básica não é só um problema da escola, mas da família, da comunidade e da sociedade como um todo, que precisam ser solucionadas através de políticas públicas que reconheçam a cidadania das pessoas com deficiência e garantam seus direitos como cidadãos, porque, acredito eu, este é o cerne do problema.

Dica de Filme: Vermelho como o Céu

28 abr

Filme indicado para o trabalho de sensibilização para a inclusão escolar de deficientes visuais é uma ótima dica para assistir durante o feriado. Confira abaixo a análise desta história real, filmada com extrema sensibilidade e poesia, feita pela psicóloga e especialista em Psicologia Escolar (CAPE) Marina Consul:

O filme se passa da década de 70 e retrata a história de Mirco Balleri, um menino de dez anos que após sofrer um acidente ao brincar com a arma do pai perde quase completamente a visão. Por indicação do médico que o atendeu – que reforça que há uma Lei na qual deficientes não podem frequentar escolas regulares, mas sim ir para uma escola especial – os pais decidem com insegurança e pesar levar o menino para um internato religioso que atende crianças cegas.

Nesse internato o diretor é extremamente rígido e amargurado, provavelmente por ter perdido a visão também. A escola utiliza um regimento de rotina e controle sobre os alunos, restringindo as atividades como brincar apenas no pátio da escola, fazer as refeições e dormir, além da limitante atividade de tecelagem para as crianças. Mirco tem dificuldades em se adaptar à escola e se recusa a aprender o Braile, mas mesmo assim seu professor Don Giulio não desiste de estimulá-lo.

Certo dia Mirco encontra um gravador e começa a explorar sons e gravá-los para usar na apresentação do trabalho que o professor pediu sobre as estações do ano. A partir daí, o aluno entra num universo novo, de fantasias, de construção de aprendizagem de uma forma criativa. Quando o diretor descobre repreende o menino, proibindo que seguisse com a intromissão no material da escola destinado ao uso dos professores. Seu professor Don Giulio, no entanto oferece um gravador com a condição de que Mirco aceite a aprender o braile.

Mirco faz amizade com a menina Francesca – filha de uma funcionária da escola, e juntos embarcam no projeto de criar uma história com sons gravados que imitam dragões, princesas, madrasta, passos, enfim diversas situações que uma pessoa cega pode ouvir para imaginar. Os outros colegas descobrem e se interessam, e Mirco acaba arranjando papéis para a participação de todos. Quando o diretor descobre a atuação dos alunos com o gravador, ele decide expulsar o aluno Mirco, o que causa revolta no professor Don Giulio, nos alunos e em Francesca que busca a ajuda de Ettore, um ex-aluno cego que trabalha na fundição da cidade e que Mirco e Francesca conheceram num dia que fugiram do colégio para passear de bicicleta. O professor Don Giulio se manifesta contra a expulsão e Ettore convida cidadãos e equipes de outras escolas que se posicionam contra a expulsão do aluno na porta do instituto.

Por fim, o professor Don Giulio passa a se responsabilizar e decide junto com os alunos apresentar para os pais dos internos a produção que eles mesmos construíram para a peça de final de ano, ainda com a ideia de que todos deveriam usar vendas para ouvir e sentir como os seus filhos.

Esse filme remete a um tema atual que é o da inclusão nas escolas normais, ou seja, de poder integrar, valorizar e incentivar o aluno com deficiências a desenvolverm suas habilidades de aprendizagem junto com outras crianças sem deficiências. A deficiência passa a ser vista como uma particularidade, como todas as pessoas tem as suas. Acredito que a troca de experiências e a convivência com outras crianças promove a diminuição do preconceito e da exclusão e permite trocas muito ricas na convivência escolar. Para Tessaro (2005), só se pode falar de integração quando há uma efetiva interação entre deficientes e não deficientes. Os programas de ensino especial devem estar compatibilizados com os do ensino regular, portanto, faz-se necessário o convívio social entre alunos, professores e demais profissionais da escola, assim como a família é importante nesse processo. A autora ainda ressalta que a integração é um processo complexo que envolve a adaptação de todas as partes: população geral, profissionais, familiares e a própria pessoa a ser integrada. Vale ressaltar que o princípio básico da educação inclusiva implica na possibilidade de que todas as crianças aprendam juntas, independente de suas dificuldades ou diferenças. (Tessaro, 2005)

O’Regan (2007), refere-se as limitações visuais como uma variedade de dificuldades, desde pequenas limitações até a cegueira total. O autor enfatiza que para fins educacionais, tais crianças são consideradas portadoras de limitações visuais se necessitarem de adaptações em seu ambiente e/ou apoio físico por meio de equipamentos para acompanhar o currículo. Aqueles cuja visão é corrigida por óculos não devem ser incluídos neste grupo. Uma criança cega costuma ser definida como aquela que necessita de métodos não-visuais para aprender – como o Braile – bem como a audição. Segundo Gotti (1998) citado por Tessaro (2005), a inclusão escolar significa um novo marco conceitual e ideológico, o qual precisa envolver políticas, serviços sociais e comunidade. Implica considerar, aceitar e reconhecer a diversidade na vida e na sociedade, isto é, identificar que cada indivíduo é único, com suas necessidades, desejos e peculiaridades próprias.

As escolas necessitam de muitos recursos ainda para alcançar a proposta da inclusão nas escolas, e para isso deve-se contar com a habilitação dos profissionais da escola e o amparo do Estado. De acordo com a Revista Nova Escola, “a organização dos objetos da sala de aula deve ser compartilhada com o aluno, a fim de facilitar o acesso e a mobilidade. Manter carteiras, estantes e mochilas sempre na mesma ordem, comunicar alterações previamente e sinalizar os objetos para que sejam facilmente reconhecidos. O aluno cego tem direito a usar materiais adaptados, como livros didáticos transcritos para o braile ou a reglete (prancheta para a escrita em Braile) para escrever durante as aulas. Antecipar a adaptação dos textos junto dos educadores responsáveis pela sala de recursos, que deve contar com máquinas braile, impressora e equipamentos adaptados.

A alfabetização em braile das crianças com cegueira total ou graus severos de deficiência visual é simultânea ao processo de alfabetização das demais crianças na escola, mas com o suporte essencial do Atendimento Educacional Especializado (AEE). Vale lembrar que, de acordo com o Decreto 6.571, de 17 de setembro de 2008, o Estado tem o dever de oferecer apoio técnico e financeiro para que o atendimento especializado esteja presente em toda a rede pública de ensino. Mas cabem ao gestor da escola e às Secretarias de Educação a administração e o requerimento dos recursos para essa finalidade. Oferecer ambientes adaptados, com sinalização em braile, escadas com contrastes de cor nos degraus, corredores desobstruídos e piso tátil, é mais uma medida importante para a inclusão de deficientes visuais. O entorno da escola também deve ser acessível, com a instalação de sinais sonoros nos semáforos e nas áreas de saída de veículos próximas da escola”.

O personagem Mirco é um menino repleto de criatividade e com muita capacidade para aprender, mas o instituto em que estava não estimulava nem oferecia novas intervenções no ensino, não havia atualização nem a escuta da necessidade dos alunos. Mirco adora cinema, inclusive levou seus colegas escondido a uma sessão como uma forma de fazer algo inovador, tanto que todos se divertiram muito. Hoje em dia já existem filmes com audiodescrição – que descrevem as cenas entre os diálogos, o cenário é descrito para que os deficientes visuais possam apreciar filmes. No site audiodescrição.com.br é possível encontrar a seguinte definição: “A audiodescrição é o recurso que permite a inclusão de pessoas com deficiência visual em cinema, teatro e programas de televisão. No Brasil, segundo dados do IBGE, existem aproximadamente 16,5 milhões de pessoas com deficiência visual total e parcial, que se encontram  excluídos da experiência audiovisual e cênica. A acessibilidade nos meios de comunicação é um tema que está em pauta no mundo todo. Os esforços neste sentido visam não apenas proporcionar o acesso a produtos culturais a uma parcela da população que se encontra excluída, como também estabelecer um novo patamar de igualdade baseado na valorização da diversidade.”

O cartunista Maurício de Sousa criou uma personagem cega chamada Dorinha que se envolve em várias atividades comuns com os outros personagens, demonstrando as potencialidades que podem ser desenvolvidas. Criou também filmes da Turma da Mônica com audiodescrição para crianças cegas, que podem ser facilmente encontrados na rede de internet. Maurício de Sousa define a personagem: “Dorinha é uma das mais novas integrantes da Turma da Mônica. Garota cega, que reconhece seus  amigos pela voz, pelo cheiro, e está completamente enturmada. É inteligente, meiga e participa de várias aventuras da Turma da Mônica. Estreou na edição no 221 do gibi da Mônica, editora Globo. Antenada com tudo o que acontece à sua volta, inclusivena moda, Dorinha está sempre deslumbrante, com roupas fashion, corte de cabelo moderno, óculos escuros, segurando, numa mão, a sua bengalinha e na outra, a coleira do Radar, um labrador esperto e carinhoso que a ajuda a se guiar. A personagem, bastante extrovertida, brinca normalmente como qualquer criança. Ela surpreende os amiguinhos com suas habilidades e sentidos aguçados como o tato, a audição e o olfato”. (Maurício de Sousa).

Considero a inclusão um tema ainda pouco discutido em relação à forma que deve ser adotada. As escolas ainda não estão preparadas para assumir e integrar um aluno com necessidades especiais. Acredito que seja um longo caminho a ser trilhado e uma grande responsabilidade do psicólogo escolar atuar nessas circunstâncias, se informando e auxiliando a escola com essa nova realidade que tende a trazer benefícios para todos.

 

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